
O alto índice de mortes violentas em Santa Rita e em outros municípios paraibanos revela um problema estrutural que transcende partidos políticos, observa o escritor Palmarí de Lucena. Governadas por diferentes siglas, essas cidades compartilham fragilidades de governança, descontinuidade administrativa e distorção de prioridades orçamentárias. A substituição de políticas públicas estruturantes por ações de impacto imediato enfraquece a presença do Estado e contribui para a normalização da violência como resultado previsível de um modelo de gestão que falha em entregar o básico. Confira íntegra…
Santa Rita figura hoje entre as cidades com maiores índices de mortes violentas do País, com 55,33 óbitos por 100 mil habitantes, segundo dados oficiais consolidados a partir de informações enviadas pelos Estados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número, por si só alarmante, ganha maior significado quando analisado em conjunto com outros municípios paraibanos que também apresentam taxas elevadas de violência letal.
Além de Santa Rita, aparecem nesse grupo João Pessoa, Bayeux, Campina Grande, Conde, Brejo do Cruz, Pedras de Fogo e Pilar. Trata-se de cidades administradas, no atual ciclo político, por partidos distintos, como PP, PSB, União Brasil, PSDB, MDB e PSD. Esse dado é relevante porque afasta explicações simplificadoras baseadas em siglas e aponta para um problema de natureza mais ampla.
O que esses municípios têm em comum não é uma orientação partidária específica, mas fragilidades recorrentes de governança urbana: descontinuidade administrativa, dificuldades de planejamento de médio e longo prazo, prioridades orçamentárias voláteis e baixa articulação entre políticas sociais, urbanas e de segurança. A violência, nesses contextos, surge menos como evento isolado e mais como resultado acumulado de escolhas públicas pouco estruturadas.
Em alguns casos, a instabilidade político-administrativa recente — marcada por disputas eleitorais judicializadas e interrupções de mandatos — comprometeu a continuidade de políticas que exigem persistência. Em outros, mesmo sem rupturas formais, observou-se a substituição do planejamento por ações de impacto imediato, orientadas sobretudo pela visibilidade pública e pelo calendário político.
Nesse cenário, chama atenção a distorção de prioridades observada em diferentes administrações, independentemente de partido. Recursos públicos são, por vezes, direcionados a eventos de grande apelo simbólico e retorno rápido, enquanto investimentos menos visíveis — como iluminação urbana, ordenamento territorial, políticas de juventude, esporte comunitário e prevenção social — permanecem insuficientes. O evento passa a ocupar o espaço da política pública; o espetáculo, o lugar do processo.
Não se trata de opor cultura a segurança, nem de negar a importância social do lazer e das manifestações culturais. O ponto central é a proporção e o critério. Em cidades marcadas por déficits estruturais e baixa presença continuada do Estado, ações pontuais não substituem políticas consistentes de base, nem enfrentam as causas profundas da violência.
Os dados nacionais reforçam essa leitura. Em 2025, o Nordeste concentrou 53 das 100 cidades com maiores índices de mortes violentas do País, patamar inalterado desde 2022. A persistência do quadro sugere não um problema conjuntural, mas limites estruturais na formulação e execução de políticas públicas.
Os números não individualizam culpas nem apontam responsáveis nominais. Eles evidenciam a falência de um modo de governar que privilegia o imediato, dispersa recursos e posterga decisões estruturais. Quando a gestão pública perde a capacidade de ordenar o território, coordenar políticas e sustentar prioridades, a violência deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento da cidade. Não é um desvio: é o resultado previsível de um modelo que não entrega o básico.
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