
A crônica do escritor Palmarí de Lucena reflete sobre como silêncio e esquecimento atuam juntos na política. O silêncio encobre práticas como fisiologismo, nepotismo eleitoral, porta giratória entre poder público e interesses privados e possíveis conflitos de interesse. Com o tempo, o esquecimento dilui críticas e indignações. Assim, políticos marcados por controvérsias reaparecem como renovadores ou reformadores e retornam ao poder. O texto alerta que, quando silêncio e esquecimento se tornam excessivos, a memória crítica da sociedade enfraquece e a política passa a repetir os mesmos ciclos. Confira íntegra...
Caros Silêncio e Esquecimento,
Escrevo-lhes juntos porque raramente caminham separados. Onde um se instala, o outro não tarda a chegar. Nas salas do poder, nos corredores das instituições e no rumor distante das campanhas eleitorais, vocês dois parecem conhecer bem o caminho.
Silêncio, tu apareces primeiro. Estás presente quando o fisiologismo veste o traje respeitável do pragmatismo político e quando cargos e apoios se transformam em moeda de negociação em nome da governabilidade. Também te vejo quando o nepotismo eleitoral se apresenta como tradição familiar, com sobrenomes que atravessam gerações como se a política fosse herança doméstica.
E quando surge a conhecida porta giratória — essa passagem fluida entre gabinetes dos três poderes e escritórios de advocacia, consultorias e interesses privados — lá estás novamente. Hoje decide-se em nome do interesse público; amanhã aconselha-se, no setor privado, aqueles que dependem dessas mesmas decisões. Nem sempre há ilegalidade, dirão alguns. Mas cresce ali a sombra persistente dos conflitos de interesse.
Então entras em cena tu, caro Esquecimento.
Chegas devagar, quase imperceptível. A indignação de ontem perde intensidade, as críticas tornam-se mais raras e as histórias que pareciam definitivas passam a ocupar apenas as margens da memória pública. É nesse momento que figuras antes marcadas por deslizes éticos — ou mesmo por ofensas à lei — reaparecem na arena política.
Retornam como candidatos da renovação, da reforma ou da denúncia. Ajustam discursos, reorganizam alianças e vestem novas narrativas. E assim, pouco a pouco, voltam a ocupar cargos que já tiveram — ou posições ainda mais elevadas na hierarquia do poder.
Mas seria injusto atribuir tudo apenas a vocês dois.
Há também uma terceira presença nessa história: o eleitorado. Não aquele idealizado nos discursos cívicos, mas o real, humano, por vezes cansado, por vezes seduzido por promessas fáceis ou por memórias seletivas. É ele quem, nas urnas, muitas vezes oferece nova legitimidade àqueles que já haviam testado os limites da confiança pública.
Quando isso acontece, não se trai apenas a expectativa de integridade administrativa. Fere-se algo maior: a própria alma da República, que depende da vigilância cívica tanto quanto das instituições.
Assim, entre o silêncio que encobre, o esquecimento que dilui e o voto que absolve, a política às vezes parece girar em círculos. Personagens conhecidos regressam ao palco, enquanto a memória coletiva, fatigada, observa o retorno como se fosse novidade.
Não lhes escrevo para expulsá-los — tarefa impossível. Toda sociedade precisa de algum silêncio e de algum esquecimento para continuar vivendo.
Mas quando ambos se tornam excessivos, e quando a cidadania abdica de sua própria memória, a República deixa de avançar.
Passa apenas a repetir-se.
Com a inquietação de quem ainda acredita que a memória pública é a primeira guardiã da democracia,
Um cronista do presente.
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