PENSAMENTO PLURAL Entre Teerã e o barril de petróleo, por Palmarí de Lucena

“O confronto entre Estados Unidos e Irã transcende o campo militar e projeta efeitos econômicos e políticos globais”, afirma o escritor Palmarí de Lucena. A eventual mudança de regime em Teerã poderia redesenhar o equilíbrio regional, mas o risco de fragmentação e instabilidade é real. O impacto imediato recai sobre o mercado de energia, com reflexos diretos na inflação mundial — inclusive no Brasil. E pontua: “Entre cálculos eleitorais e interesses estratégicos, o desfecho permanece incerto no Oriente Médio, historicamente imprevisível.” Confira íntegra...

Pensar uma guerra no Oriente Médio exige abandonar a tentação das certezas fáceis. Ali, a história nunca caminha em linha reta. Religião e geopolítica se entrelaçam, petróleo e identidade nacional se confundem, e cada movimento militar reverbera muito além das fronteiras visíveis no mapa. O confronto entre Donald Trump e o regime iraniano deve ser lido assim: como um episódio de alta combustão num tabuleiro onde nada é simples — e tudo tem preço.

O regime instaurado em Teerã a partir de 1979 construiu, ao longo das décadas, uma rede de influência que ultrapassa suas fronteiras. Financiou milícias, interferiu em disputas regionais e sustentou governos alinhados à sua visão ideológica. Internamente, governou sob forte repressão, limitando liberdades civis e reprimindo protestos. Para muitos analistas, a substituição desse modelo por uma liderança voltada ao desenvolvimento econômico e à participação popular teria potencial de alterar profundamente o equilíbrio regional. Um Irã menos fechado e menos beligerante poderia inaugurar outra etapa no Oriente Médio.

Mas a história ensina cautela. Regimes não desmoronam apenas sob bombardeios. Estruturas de poder, quando enraizadas, sobrevivem à pressão externa — às vezes se transformam, às vezes endurecem. A hipótese de uma transição negociada, que preserve parte do aparato estatal enquanto reduz sua agressividade externa, é tão plausível quanto a de um prolongamento do conflito. Há ainda o risco mais inquietante: o da fragmentação. O Irã não é um bloco homogêneo; é um mosaico étnico e cultural. Em cenários de instabilidade prolongada, fissuras internas podem ganhar protagonismo.

Para o leitor brasileiro, é preciso traduzir o conflito em suas consequências concretas. O Oriente Médio não está distante quando o preço do barril sobe. Cerca de um quinto do comércio global de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz. Qualquer ameaça àquela rota impacta os mercados internacionais. O resultado aparece no posto de gasolina da esquina, no custo do transporte público, na inflação que corrói salários. Em um mundo interdependente, a geopolítica é sentida na feira e no supermercado.

Há também o componente político. Em Washington, o cálculo eleitoral pesa tanto quanto o estratégico. Guerras longas e onerosas costumam desgastar governos. Em Israel, o conflito pode redefinir disputas internas e alterar alianças. Em ambos os casos, a retórica em defesa da democracia no exterior convive com debates intensos sobre instituições e limites do poder em casa. A exportação de valores nem sempre coincide com sua prática doméstica — uma contradição que não nos é estranha.

Outro ator observa em silêncio: a China, grande compradora de energia iraniana. Pequim avalia custos, riscos e oportunidades, enquanto acompanha o desempenho dos arsenais e das alianças. O conflito regional projeta sombras sobre o equilíbrio global.

É cedo para prever desfechos. O Oriente Médio já demonstrou que a queda de uma autocracia pode abrir caminho não para a democracia, mas para o vácuo e a desordem. Ao mesmo tempo, há sinais de cansaço regional com a lógica permanente da confrontação. Países árabes que investem em modernização econômica observam com interesse qualquer redução de tensões que favoreça integração e estabilidade.

O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de um regime ou a estratégia de um presidente. É a configuração futura de uma região que há décadas influencia o humor da economia mundial. No Brasil, convém acompanhar menos com paixão ideológica e mais com lucidez pragmática. Afinal, embora os mísseis não cruzem nosso céu, os efeitos de cada explosão ecoam no orçamento das famílias e nas contas públicas.

Num cenário tão volátil, prudência não é fraqueza — é método. A história do Oriente Médio raramente confirma previsões apressadas. E, em tempos de incerteza global, compreender essa complexidade é a única forma responsável de tomar posição.

 

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