PENSAMENTO PLURAL O esgotamento da previsibilidade e a solidão do poder — com ecos no Brasil, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa a crescente imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump e seus impactos nas relações com a Europa. Destaca a perda de confiança, o enfraquecimento de alianças como a OTAN e a adoção de posturas mais cautelosas por líderes europeus. Também aborda os reflexos no Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva, que busca equilíbrio diplomático diante de um cenário global instável e menos previsível. Confira íntegra...

A política internacional sempre conviveu com tensões, divergências e rupturas. Há momentos, porém, em que o problema deixa de ser o conflito em si e passa a ser a ausência de qualquer padrão confiável de comportamento. É nesse terreno instável que se encontra hoje a relação entre os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, e seus tradicionais aliados europeus.

O desgaste não ocorreu de forma repentina. Ao longo do tempo, consolidou-se a percepção de que decisões estratégicas passaram a ser tomadas sem coordenação, diálogo ou aviso prévio. Para países acostumados a décadas de cooperação institucionalizada, esse deslocamento representa mais do que um desconforto diplomático — trata-se de uma quebra de confiança.

Lideranças europeias, como Emmanuel Macron, têm expressado, ainda que de forma indireta, seu incômodo com a volatilidade do parceiro americano. A crítica não se limita ao conteúdo das decisões, mas à forma como elas são conduzidas: mudanças abruptas de posição, declarações inflamadas e recuos inesperados criam um ambiente de incerteza permanente.

Durante algum tempo, houve tentativas de adaptação. Alguns governos optaram por uma postura conciliadora, apostando que gestos simbólicos e aproximação pessoal poderiam gerar maior previsibilidade. Essa estratégia, contudo, mostrou-se limitada. A oscilação constante de prioridades e discursos reduziu a eficácia de qualquer tentativa de influência externa.

O impacto dessa dinâmica vai além das relações bilaterais. Estruturas multilaterais, como a OTAN, passam a ser tensionadas não apenas por pressões externas, mas pela dificuldade interna de alinhar expectativas. Quando um de seus principais membros atua de forma unilateral em temas sensíveis, a coesão do grupo inevitavelmente se fragiliza.

Nesse contexto, figuras como Keir Starmer e Boris Pistorius têm adotado uma postura mais assertiva, sinalizando que o alinhamento automático já não é uma opção viável. Mesmo governos ideologicamente próximos a Washington, como o de Giorgia Meloni, demonstram cautela diante de decisões com amplas repercussões humanitárias e geopolíticas.

Ao mesmo tempo, a permanência de apoios mais firmes, como o de Viktor Orbán, evidencia divisões internas na Europa sobre como responder a esse novo cenário. Ainda assim, predomina uma postura de distanciamento prudente, mais voltada à contenção de riscos do que ao confronto direto.

Esse ambiente de incerteza não se limita ao eixo transatlântico. Ele produz efeitos também em países como o Brasil, que historicamente buscam equilibrar autonomia diplomática e pragmatismo econômico. Sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, o país tenta reposicionar-se como ator relevante no cenário internacional, defendendo o multilateralismo e o diálogo como instrumentos centrais.

Entretanto, a instabilidade das grandes potências dificulta essa estratégia. Quando os polos tradicionais de poder operam de forma imprevisível, países intermediários enfrentam maiores riscos ao definir alinhamentos. Nesse contexto, o Brasil tende a adotar uma postura cautelosa, evitando compromissos rígidos e priorizando a diversificação de parcerias — seja com Europa, Estados Unidos ou outras regiões.

Além disso, a própria dinâmica interna brasileira, marcada por polarização política e desafios institucionais recentes, reforça a necessidade de previsibilidade externa. Um ambiente internacional volátil amplia incertezas econômicas e reduz margens de manobra diplomática. A estabilidade global, portanto, não é apenas um ideal abstrato, mas um interesse concreto.

O problema central não reside apenas na divergência de interesses, algo inerente à política internacional, mas na dificuldade de antecipar ações e construir respostas coordenadas. A previsibilidade, elemento essencial para a estabilidade global, torna-se escassa quando decisões são guiadas mais por impulsos do que por estratégias consistentes.

Essa realidade produz um efeito silencioso, porém profundo: a erosão da autoridade. Não se trata necessariamente de perda de poder material, mas da diminuição da capacidade de exercer liderança reconhecida. Sem confiança, mesmo iniciativas legítimas passam a ser recebidas com reservas.

A consequência é um cenário em que aliados tradicionais deixam de agir como tal, não por ruptura formal, mas por cautela. A cooperação dá lugar à observação atenta; o alinhamento automático é substituído por avaliações caso a caso. Trata-se de uma mudança sutil, mas de grande alcance.

No caso brasileiro, essa lógica se traduz em uma diplomacia pragmática: preservar canais abertos com diferentes atores, evitar antagonismos desnecessários e manter flexibilidade diante de um mundo em transformação.

Ao fim, o isolamento não precisa ser declarado para se tornar evidente. Ele se constrói gradualmente, na repetição de episódios que minam a credibilidade e tornam qualquer parceria mais difícil. Em um mundo interdependente, essa solidão estratégica impõe custos crescentes — não apenas para quem a protagoniza, mas também para aqueles que, como o Brasil, dependem de estabilidade e previsibilidade para sustentar seu desenvolvimento.

 

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