
O texto do escritor Palmarí de Lucena defende que o cordel deve ser reconhecido não apenas como patrimônio cultural, mas como uma metodologia de ensino capaz de promover aprendizagem significativa. Historicamente, serviu para divulgar informações e democratizar o conhecimento. Na educação contemporânea, estimula criatividade, pensamento crítico e protagonismo dos estudantes ao transformar conteúdos em versos. Assim, aproxima cultura, ciência e educação, mostrando que tradição e inovação podem caminhar juntas na construção do conhecimento. Confira íntegra…
Há um equívoco que o Brasil insiste em cometer: confundir tradição com antiguidade.
Quando uma manifestação cultural recebe o selo de patrimônio, muitas vezes deixa de ser vista como instrumento de criação para transformar-se em objeto de contemplação. É admirada, reverenciada e estudada, mas perde parte de sua função original. Foi isso que aconteceu com o cordel. Em algum momento, passamos a acreditar que ele pertence apenas às feiras nordestinas, aos museus da cultura popular ou às estantes das bibliotecas especializadas, esquecendo que, antes de ser literatura, foi um dos mais eficientes sistemas de circulação do conhecimento produzidos no Brasil.
Muito antes de o rádio alcançar os rincões do país, antes de a televisão entrar nas casas e muito antes de a internet conectar continentes, o Brasil já possuía uma ampla rede de informação. Ela não dependia de satélites nem de fibras ópticas, mas da força da palavra. O poeta transformava acontecimentos em versos; o vendedor levava os folhetos às feiras; o leitor os declamava para quem não sabia ler. Assim, notícias percorriam sertões, fatos históricos ganhavam memória coletiva, descobertas científicas encontravam explicação acessível e campanhas de vacinação, epidemias, secas, eleições e mudanças políticas chegavam às comunidades pela força da poesia.
O cordel foi, durante décadas, jornal, biblioteca itinerante, sala de aula e universidade popular. Poucas manifestações culturais brasileiras conseguiram reunir tantas funções ao mesmo tempo. Há registros de folhetos que ensinaram práticas de higiene durante epidemias, divulgaram informações sobre doenças e formas de prevenção, orientaram agricultores, explicaram direitos dos trabalhadores, comentaram acontecimentos internacionais, narraram guerras, revoluções, viagens espaciais e avanços científicos. Não se tratava de simplificar o conhecimento, mas de democratizá-lo, tornando-o compreensível sem perder sua relevância.
Talvez por isso cause estranheza que a escola ainda utilize o cordel quase exclusivamente para ensinar… o próprio cordel. Seu verdadeiro potencial, entretanto, está em outra direção: transformar-se em instrumento de aquisição, produção e transferência de conhecimento, permitindo que professores e estudantes construam saberes de forma colaborativa, criativa e interdisciplinar.
A educação do século XXI procura metodologias capazes de despertar o protagonismo dos estudantes, desenvolver pensamento crítico, estimular a criatividade e integrar diferentes áreas do conhecimento. Fala-se em aprendizagem baseada em projetos, metodologias ativas, cultura digital e interdisciplinaridade. Tudo isso é necessário. Ainda assim, permanece uma pergunta que fazemos com pouca frequência: por que imaginar que toda inovação pedagógica precisa nascer da tecnologia digital?
O cordel nos lembra que inovação também pode surgir da inteligência cultural acumulada por um povo. Quando um estudante transforma um conteúdo de Química em sextilhas ou escreve um cordel sobre mudanças climáticas, inteligência artificial, astronomia ou democracia, ele precisa compreender profundamente o assunto antes de reorganizá-lo em versos. Nesse processo, seleciona informações, estabelece relações entre conceitos, sintetiza ideias e lhes atribui novo significado. Aprende primeiro para compreender e, em seguida, aprende novamente para comunicar. É justamente nesse movimento que o conhecimento deixa de ser mera informação e se transforma em aprendizagem significativa.
Por essa razão, o cordel não deve ser visto apenas como um recurso para tornar a aula mais agradável. Ele pode constituir uma metodologia de ensino, pois modifica a forma como o conhecimento é construído. O estudante deixa de repetir definições para tornar-se autor de uma narrativa; a informação deixa de ser recebida passivamente para ser reelaborada pela linguagem; e o conteúdo escolar passa a ser apropriado por meio da criação, da reflexão e da oralidade.
Essa transformação alcança igualmente o professor. Ao converter um conteúdo em narrativa poética, o docente é levado a revisitar sua própria linguagem, distinguir o essencial do acessório e encontrar formas mais claras de comunicar conceitos complexos. Ensinar por meio do cordel exige rigor intelectual, capacidade de síntese e sensibilidade pedagógica. Em vez de apenas transmitir informações, o professor cria condições para que o conhecimento circule, seja reconstruído pelos estudantes e retorne enriquecido pelo diálogo.
Talvez seja essa a maior contribuição do cordel para a educação contemporânea. Ele rompe a separação entre ensinar e aprender, porque transforma ambos em participantes do mesmo processo de construção do conhecimento. O professor deixa de ser apenas a fonte do saber, e o estudante deixa de ser apenas seu destinatário; ambos tornam-se autores de uma experiência compartilhada de aprendizagem.
É nesse ponto que a aproximação com o rap se torna especialmente reveladora. O rap conquistou milhões de jovens porque compreendeu que a palavra ritmada continua sendo uma das formas mais poderosas de interpretar a realidade, organizar a experiência humana e produzir identidade. O cordel sempre soube disso. A diferença é que ainda insistimos em tratá-lo como memória, quando ele continua sendo possibilidade.
Talvez tenha chegado o momento de devolver ao cordel sua vocação original: ser uma linguagem do presente. Não apenas para preservar uma tradição literária admirável, mas para colocá-la novamente a serviço da inteligência coletiva. Uma sociedade demonstra maturidade não apenas quando conserva seu patrimônio cultural, mas quando consegue transformá-lo em instrumento de inovação, de formação cidadã e de produção de conhecimento.
Se o cordel já cumpriu esse papel em diferentes momentos da história brasileira, nada impede que volte a exercê-lo, agora em diálogo com os desafios da escola do século XXI. Sua presença nas salas de aula, nos laboratórios, nas bibliotecas e nas plataformas digitais não representaria um retorno ao passado, mas uma forma inteligente de aproximar cultura, ciência e educação.
Porque o conhecimento que permanece vivo não é o que repousa silenciosamente nas estantes. É o que circula, transforma pessoas, desperta perguntas e cria novos sentidos para o mundo.
É esse conhecimento que o cordel sempre soube fazer viajar.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.