PENSAMENTO PLURAL A República não fala em eco, por Palmarí de Lucena

A reação brasileira às tarifas impostas pelos Estados Unidos reacendeu um debate que vai além do comércio exterior: quem representa oficialmente o país em questões de interesse nacional. Em seu artigo, o escritor Palmarí de Lucena defende que, embora o pluralismo seja próprio da democracia, a política externa exige unidade institucional. Ao alertar para os riscos da polarização sobre a diplomacia, sustenta que credibilidade, coerência e previsibilidade são ativos indispensáveis para fortalecer a soberania e a posição internacional do Brasil. Confira íntegra...

Há acontecimentos que sobrevivem ao noticiário porque revelam algo maior do que os fatos que os produziram. A controvérsia em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras é um deles. Mais do que uma disputa comercial, ela expôs uma questão essencial à vida republicana: quem fala pelo Brasil quando os interesses nacionais estão em jogo?

A resposta parece óbvia, mas nem sempre resiste à polarização.

Democracias vivem do dissenso. Governo e oposição existem para divergir, disputar projetos e submeter suas diferenças ao julgamento das urnas. Essa pluralidade não enfraquece as instituições; ao contrário, lhes confere legitimidade. O equívoco surge quando se confundem dois planos distintos: a competição política e a representação do Estado.

Essa distinção torna-se decisiva nas relações internacionais. Governos estrangeiros não negociam com correntes de opinião, mas com Estados. Esperam encontrar uma autoridade capaz de assumir compromissos, responder por eles e transmitir previsibilidade. É dessa confiança — construída lentamente e perdida com facilidade — que depende boa parte da eficácia da diplomacia.

Não por acaso, a tradição política americana consagrou uma máxima repetida por presidentes de diferentes partidos: os Estados Unidos têm apenas um presidente de cada vez. A frase jamais pretendeu reduzir a oposição ao silêncio. Seu sentido é institucional. Enquanto o poder se prepara para mudar de mãos, a representação do Estado permanece una. A democracia abriga muitas vozes; a República apresenta apenas uma posição oficial.

O episódio brasileiro recolocou esse princípio em evidência. O governo respondeu às tarifas pelos canais diplomáticos próprios do Poder Executivo. Paralelamente, parlamentares buscaram interlocução direta com autoridades estrangeiras para defender uma leitura distinta da crise. Ambas as iniciativas pertencem ao debate político. Apenas uma, contudo, representa oficialmente o Estado brasileiro.

Não se trata de formalismo. Na diplomacia, a forma também produz efeitos. Gestos, encontros e declarações comunicam tanto quanto os documentos assinados. Quando diferentes autoridades transmitem mensagens incompatíveis sobre um mesmo tema, instala-se uma dúvida que enfraquece qualquer negociação: quem, afinal, fala pelo país?

Esse talvez seja um dos efeitos mais discretos da polarização contemporânea. Aos poucos, questões permanentes do Estado passam a ser tratadas como prolongamento da disputa eleitoral. O interesse nacional torna-se refém das conveniências do presente, e a política externa corre o risco de perder sua condição de política de Estado.

As democracias mais sólidas não eliminam conflitos; delimitam seus espaços. Sabem que a alternância de governos não pode significar a alternância dos fundamentos institucionais. É essa continuidade que produz confiança entre as nações.

As tarifas passarão, como passaram tantas outras controvérsias comerciais. Novos governos ocuparão o poder e novos conflitos surgirão. O que permanecerá será a imagem institucional que o Brasil construir de si mesmo.

Na política, a diversidade é indispensável. Na representação internacional, a clareza também. Entre esses dois valores não existe contradição, mas complementaridade. A democracia floresce pela pluralidade; a República sustenta-se pela coerência.

Talvez as cartas trocadas neste episódio logo pertençam aos arquivos. A questão que elas suscitam, porém, continuará atual: uma nação fortalece sua soberania quando multiplica as vozes que falam em seu nome ou quando preserva a nitidez de sua representação institucional? Na diplomacia, como na arquitetura, a solidez raramente depende daquilo que mais aparece. Ela nasce dos alicerces invisíveis. E nenhum deles é mais importante do que a confiança de que, quando um país toma a palavra, o mundo sabe exatamente quem está falando.

 

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