PENSAMENTO PLURAL O caminho de Ítaca, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena mostra que a jornada de Ulisses simboliza a experiência humana de autoconhecimento. Mais importante do que alcançar um destino é o processo de transformação vivido ao longo do caminho. Sereias, ciclopes e tempestades representam desafios, ilusões e limitações presentes na vida. Ao retornar a Ítaca, Ulisses descobre que tanto ele quanto seu lar mudaram. Assim, a verdadeira conquista consiste em preservar a própria identidade e reconhecer-se após as mudanças da vida. Confira íntegra…

Há um equívoco antigo sobre as viagens. Costumamos acreditar que elas servem para nos levar a algum lugar, quando talvez sua verdadeira função seja devolver-nos a nós mesmos. A literatura percebeu isso muito antes da psicologia ou dos livros de autoajuda. Depois de narrar, na Ilíada, a devastadora Guerra de Troia, Homero escreveu, na Odisseia, uma história ainda mais próxima da vida comum: a de um homem que, encerrada a guerra, descobre que voltar para casa pode ser muito mais difícil do que vencer um exército.

 

À primeira vista, parece um paradoxo. Como pode alguém sobreviver a dez anos de batalhas e encontrar seu maior desafio justamente quando a paz enfim se anuncia? A resposta talvez esteja no fato de que as guerras têm começo, meio e fim. Atravessamos os conflitos sabendo, ou ao menos esperando, que um dia eles terminarão. Já a vida não respeita esse calendário. Quando julgamos ter vencido a batalha mais importante, percebemos que ainda resta a travessia.

É por isso que a jornada de Ulisses continua a nos comover. Não porque seja povoada por deuses, monstros e prodígios, mas porque traduz, em linguagem simbólica, aquilo que todos experimentamos. Ninguém atravessa a existência sem enfrentar mares revoltos, perder o rumo em determinados momentos ou sentir a tentação de abandonar o caminho. Mudam os cenários; permanece a condição humana.

Os antigos imaginaram sereias capazes de seduzir os navegantes com um canto irresistível. Hoje elas assumem outras formas. Prometem sucesso imediato, reconhecimento sem esforço, felicidade em prestações e uma vida permanentemente exposta ao aplauso. Continuam exercendo o mesmo fascínio porque oferecem aquilo que o viajante cansado mais deseja: a ilusão de que existe um atalho para o destino.

Também já não encontramos ciclopes escondidos em cavernas. Eles circulam entre nós, convencidos de que existe apenas um modo de ver o mundo. São prisioneiros do próprio olhar, incapazes de admitir que toda história comporta mais de uma verdade. Talvez a cegueira contemporânea não esteja na falta de visão, mas no excesso de certezas.

Há ainda as ilhas onde o tempo parece suspenso. Todos passamos por elas. São os lugares — ou as circunstâncias — que nos oferecem conforto suficiente para desistirmos discretamente dos sonhos que exigem coragem. Permanecer parece prudente; partir parece arriscado. No entanto, a experiência ensina que existe uma diferença silenciosa entre repousar e acomodar-se. O descanso fortalece; a acomodação enfraquece a vontade de seguir viagem.

O tempo, porém, reserva uma surpresa ainda maior. Descobrimos, mais cedo ou mais tarde, que a casa para a qual desejamos voltar também continuou sua própria viagem. As pessoas envelhecem, os afetos amadurecem, as ruas guardam outras histórias e até os silêncios adquirem um significado diferente. Voltamos imaginando reencontrar o passado, quando, na verdade, encontramos apenas uma nova versão dele. A casa permanece no mesmo lugar, mas quem retorna já não é o mesmo, e isso transforma o reencontro numa delicada negociação entre a memória e a realidade.

Talvez seja essa a razão de certas obras sobreviverem aos séculos. Elas não oferecem respostas; apenas formulam, com extraordinária beleza, perguntas que continuam esperando por nós. O que realmente buscamos quando seguimos adiante? O que significa chegar? Em que momento percebemos que a viagem nos transformou mais do que o destino jamais poderia fazê-lo?

No fundo, todos possuímos uma espécie de Ítaca, ainda que nunca a chamemos por esse nome. Para alguns, ela tem o rosto da família; para outros, a lembrança de um amor, uma amizade preservada pelo tempo, uma vocação esquecida ou a serenidade que um dia perdemos entre compromissos e urgências. Passamos boa parte da vida acreditando que a felicidade mora no próximo porto, quando talvez ela resida na fidelidade ao rumo que escolhemos seguir.

Homero compreendeu que a grande aventura humana nunca foi conquistar cidades, derrotar inimigos ou inscrever o próprio nome na história. Tudo isso passa. O que permanece é a tentativa de conservar, apesar das tempestades, aquilo que nos permite reconhecer quem somos. A verdadeira vitória de Ulisses não foi regressar a Ítaca; foi chegar sem perder a memória daquilo que o fazia desejar o retorno.

Talvez essa seja a razão de ainda voltarmos às páginas da Odisseia. Não para acompanhar as façanhas de um herói da Antiguidade, mas para lembrar que todos navegamos entre partidas e reencontros. A cada escolha, afastamo-nos de algum porto e nos aproximamos de outro. E, ao final de cada travessia, compreendemos que o caminho de Ítaca nunca conduziu apenas a uma ilha perdida no Mediterrâneo. Desde o princípio, ele apontava para o lugar mais difícil de alcançar: aquele onde, depois de tantas mudanças, voltamos a nos reconhecer.

 

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