
A crônica do escritor Palmarí de Lucena analisa como a desinformação digital e os algoritmos transformaram a política brasileira, ampliando a polarização, o ressentimento e a ameaça autoritária. Das campanhas baseadas no medo aos ataques às instituições, mostra como redes sociais e influências internacionais interferem no debate público. Também alerta que combater manipulações com estratégias enganosas compromete os princípios democráticos. A defesa da República exige respeito aos resultados eleitorais, pluralismo, responsabilidade institucional e convivência democrática com divergências. Afinal, o voto é soberano; o algoritmo, não. Confira íntegra…
A democracia entre a urna, o algoritmo e a velha vocação brasileira para o autoritarismo
Há uma curiosa atualização tecnológica no autoritarismo brasileiro. Mudaram os instrumentos, sofisticaram-se os métodos, mas a dificuldade permanece: aceitar que o outro possa vencer. O golpista de antigamente precisava de quartéis e generais. O de agora pode começar com um celular, perfis anônimos e vídeos fora de contexto — além da convicção de que, se o resultado desagrada, a eleição foi fraudada.
A reportagem de Jon Lee Anderson, publicada na The New Yorker, sobre a vitória de Lula e o enfrentamento da direita nas redes sociais, revela uma transformação que ultrapassa as fronteiras brasileiras. A disputa política deixou de ser exclusivamente nacional. Washington, Brasília, Buenos Aires e outras capitais participam de um circuito de influência no qual circulam personagens, estratégias e narrativas submetidos a uma geografia própria: a do ressentimento.
A disputa não é apenas pelo governo, mas pela interpretação da realidade: quem define os medos e os inimigos conquista uma vantagem que nem sempre aparece nas pesquisas.
A direita brasileira compreendeu cedo uma evidência do nosso tempo: a política já não precisa esperar o horário eleitoral ou o editorial dos jornais. Pode entrar na sala de jantar, interromper o almoço de domingo e instalar-se no grupo de WhatsApp da família. Entre fotografias de netos, mensagens religiosas e receitas de bolo, sempre haverá alguém disposto a encaminhar uma denúncia gravíssima, acompanhada de um vídeo de péssima qualidade e nenhuma fonte identificável.
A mentira encontrou seu ambiente ideal: distribuição gratuita, reprodução instantânea e responsabilidade diluída entre milhões de remetentes. Não precisa convencer pela lógica; basta provocar. Não precisa demonstrar; basta insinuar. É suficiente repetir uma acusação até que ela adquira a aparência de uma certidão.
O telefone celular tornou-se um instrumento de propaganda ao alcance de quase todos, embora nem todos disponham dos mesmos recursos para distinguir informação de manipulação. O velho coronelismo também se modernizou: já não precisa controlar a terra, o cartório ou o delegado. Pode administrar uma comunidade digital, distribuir palavras de ordem e fabricar inimigos.
É o coronelismo sem fazenda, mas com senha. A eleição de 2018 demonstrou a eficácia desse mecanismo. O fantasma da chamada ideologia de gênero, a ameaça comunista e o medo de uma desordem moral foram convertidos em instrumentos de mobilização. O debate sobre o futuro do país cedeu espaço à fabricação de ameaças. Era uma campanha contra o medo, feita pelo medo e alimentada por uma indústria de suspeitas.
A pandemia expôs de maneira brutal as consequências de uma política que, em diferentes momentos, pareceu tratar a realidade como um inconveniente narrativo. As mortes, naturalmente, não aceitaram participar dessa ficção. Os hospitais não eram montagens; os cemitérios não dependiam de algoritmos. A derrota eleitoral de 2022 foi seguida por suspeitas sem comprovação e iniciativas destinadas a desacreditar o processo eleitoral. Em 8 de janeiro de 2023, a contestação ultrapassou a fronteira da retórica: os edifícios dos Três Poderes foram invadidos e depredados por pessoas que afirmavam defender a pátria.
Foi uma das cenas mais reveladoras da política brasileira recente: cidadãos vestidos com as cores nacionais destruíam o patrimônio público em nome de uma suposta salvação nacional. A pátria, naquele dia, foi defendida contra a própria República.
A reportagem de Anderson chama a atenção para outro capítulo: a entrada do campo progressista no terreno da mobilização digital. A atuação de André Janones, descrita pelo jornalista, sugere que a direita não detém o monopólio da comunicação em rede. A internet não tem dono político. Tem proprietários econômicos, mecanismos opacos de distribuição e preferência por conteúdos capazes de provocar reações intensas.
O algoritmo não precisa compreender uma ideia para promovê-la. Basta que ela produza engajamento. E poucas coisas mobilizam tanto quanto o medo, a raiva e a sensação de que o mundo está prestes a desabar porque alguém pensa diferente.
A esquerda parece ter percebido que não pode tratar as redes como apêndice da comunicação tradicional. A razão, infelizmente, não recebe tantas notificações quanto a indignação.
Mas há uma armadilha nesse aprendizado. Se a democracia responder à manipulação apenas com uma manipulação mais eficiente, vencerá uma batalha tecnológica e perderá uma disputa de princípios. Combater a mentira com outra mentira não recupera a verdade: institucionaliza o cinismo. Não basta aprender a gritar mais alto. É preciso dizer algo que mereça ser ouvido.
A disputa tampouco acontece apenas no Brasil. Donald Trump, Elon Musk, Javier Milei e movimentos de direita de diferentes países participam de um ambiente transnacional de influência. Ideias, recursos e estratégias eleitorais circulam com velocidade que desafia as instituições nacionais. A soberania continua desenhada nos mapas, mas a propaganda já não respeita fronteiras.
Empresas estrangeiras e campanhas coordenadas a milhares de quilômetros podem influenciar o debate nacional sem enfrentar as consequências do que disseminam. A democracia enfrenta uma indústria de influência planetária. É como tentar conter uma enchente com o regulamento de um condomínio.
O Brasil reúne uma extraordinária capacidade popular de mobilização e uma persistente fragilidade institucional. É capaz de produzir gestos de solidariedade impressionantes, mas também de se deixar seduzir por salvadores que prometem resolver pela força problemas que exigiriam paciência, inteligência e políticas públicas. Há sempre alguém oferecendo uma pátria sem conflitos. Começa prometendo liberdade e termina explicando por que certas pessoas não deveriam desfrutá-la.
A vitória de Lula, tal como apresentada na reportagem, não deve ser confundida com a cura da democracia brasileira. Uma eleição muda o governo, mas não dissolve o ressentimento, a desigualdade, a desinformação ou a tentação autoritária. Lula venceu uma disputa eleitoral. O país continua tendo de vencer a si mesmo.
A defesa da democracia tampouco pode ser confundida com a defesa automática de qualquer governo. Instituições fortes não protegem governantes de críticas; submetem-nos às mesmas regras que valem para os demais cidadãos. A democracia não é patrimônio particular de quem vence, nem licença para que os derrotados destruam as regras do jogo.
A dificuldade mais persistente talvez seja aceitar que o adversário não é um inimigo a eliminar, mas alguém com o mesmo direito de disputar o destino coletivo. A cada eleição, o país parece convocado a escolher não apenas um presidente, mas um lado da humanidade. O adversário vira ameaça metafísica, e a política se transforma em trincheira.
Mas existe vida fora do campo de batalha. Existe o brasileiro que precisa de emprego, escola, hospital, transporte e segurança; a professora que deseja ensinar sem ser tratada como inimiga da família; o pequeno empresário que não quer participar de uma guerra cultural antes de pagar os impostos; o cidadão que deseja criticar o presidente sem ser chamado de traidor e apoiá-lo sem ser tratado como ignorante. Essa gente, quase invisível nos espetáculos digitais, é a verdadeira destinatária da democracia.
A vida real não cabe num vídeo de quinze segundos nem se resolve com uma hashtag. Exige orçamento, planejamento, negociação e fiscalização — tarefas menos espetaculares, mas infinitamente mais importantes.
A internet pode organizar exércitos, derrubar reputações, fabricar celebridades e transformar boatos em crises institucionais. O que não consegue fazer, por si só, é construir uma República. A democracia precisa falar a língua da internet sem permitir que a internet determine sua gramática moral. Precisa disputar a atenção sem se tornar refém da histeria e defender-se dos adversários sem adquirir seus hábitos. Talvez a questão brasileira seja menos tecnológica do que civilizatória: o país ainda não resolveu sua dificuldade de conviver com a diferença. Apenas colocou essa dificuldade no bolso de cada cidadão e lhe deu uma tela iluminada.
O polegar pode aprovar, condenar, compartilhar, cancelar e convocar. É um pequeno gesto de grandes consequências, mas continua sendo apenas um polegar. Não é um programa de governo, uma Constituição ou uma instituição republicana.
O voto, ao contrário, carrega uma responsabilidade que não termina quando a urna se fecha. Exige que o vencedor compreenda os limites do próprio poder e que o derrotado reconheça a legitimidade do resultado. Exige, sobretudo, que a divergência sobreviva à eleição. O Brasil não precisa escolher entre a urna e a internet. Precisa decidir se continuará sendo uma República ou se aceitará transformar-se numa multidão mobilizada contra os próprios fantasmas. Há uma diferença entre conquistar o poder e merecer exercê-lo; entre vencer uma eleição e compreender o que significa governar uma sociedade plural; entre defender a liberdade e desejá-la apenas para os que concordam conosco.
A República não é um grupo de WhatsApp do qual se expulsa quem discorda. Não pertence a um presidente, a um partido, a uma família política ou a um empresário de tecnologia. E a democracia não é um aplicativo que se instala quando convém, desinstala quando incomoda e reinicia quando o resultado desagrada.
O voto é soberano. O algoritmo, não.
Quando um país passa a acreditar que a verdade é aquilo que sua própria bolha compartilha, a democracia já não está ameaçada apenas por quem pretende derrubá-la. É corroída por dentro, por cidadãos que, ao entregar o próprio pensamento ao algoritmo, terceirizam também a liberdade.
E uma República que terceiriza a liberdade acaba descobrindo, tarde demais, que não existe botão capaz de reiniciá-la.
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