
Campina Grande produzia ou beneficiava café moído e torrado, colorau, condimentos, macarrão, bolachas, biscoitos, tubos e conexões para água e esgoto, fogões a gás e elétricos, pregos, taxas, sabão, óleo comestível, margarina, salgadinhos, álcool engarrafado, vinagre, carrocerias para caminhões, além de ter forte presença na distribuição de combustíveis, especialmente gasolina e diesel.
Hoje, grande parte desses produtos deixou de ser fabricada localmente. O que antes saía das fábricas de Campina Grande agora chega de outras cidades, de outros estados e até de outros países.
Essa mudança representa uma alteração profunda na economia local.
Uma cidade que produz é diferente de uma cidade que apenas compra e revende. O comércio é importante, gera emprego, movimenta dinheiro e abastece a população. Mas a indústria faz algo a mais: cria conhecimento técnico, forma mão de obra, movimenta fornecedores, fortalece oficinas, gera logística, cria marcas locais e aumenta a riqueza real da cidade.
Quando uma cidade deixa de fabricar o que antes fabricava, ela não perde apenas fábricas. Perde memória produtiva. Perde mecânicos industriais, eletricistas, técnicos de manutenção, compradores de matéria-prima, vendedores especializados, embaladores, pequenos fornecedores, engenheiros de produção e o orgulho de ver produtos locais circulando pelo Brasil.
O problema é importar quase tudo aquilo que poderia continuar sendo produzido localmente.
Campina Grande continua forte. Tem universidades, comércio regional, saúde, tecnologia, serviços, festas populares, localização estratégica e tradição empreendedora. Mas isso não basta. Uma cidade forte não pode se contentar em ser apenas consumidora dos produtos dos outros. Precisa também ser produtora.
A desindustrialização local reduz empregos industriais, aumenta a dependência de produtos vindos de fora, enfraquece setores estratégicos, amplia desigualdades e diminui a capacidade da cidade de criar riqueza nova.
Quando Campina Grande compra um pacote de café fabricado fora, uma parte do dinheiro fica no comércio local. Mas a maior parte vai para quem fabricou, embalou, transportou, desenvolveu a marca e controlou a cadeia produtiva. Quando esse mesmo produto é fabricado em Campina, o dinheiro circula mais vezes dentro da cidade.
O real gasto em produto importado passa rapidamente pela cidade; o real gasto em produto fabricado localmente cria raízes.
Trata-se de pensar o futuro.
Campina Grande precisa de uma política séria de retomada produtiva, com metas, setores prioritários e ambiente favorável ao empreendedor. A cidade deve identificar quais produtos ainda podem voltar a ser fabricados localmente com competitividade.
Há potencial em alimentos, condimentos, massas, biscoitos, plásticos, embalagens, reciclagem, produtos de limpeza, metalmecânica, materiais de construção, calçados, confecções, móveis, equipamentos agrícolas leves, componentes para saneamento e produtos ligados à economia circular.
Campina Grande não precisa fabricar tudo. Mas precisa escolher melhor o que pode fabricar.
Também é necessário melhorar a infraestrutura dos distritos industriais, facilitar o licenciamento, aproximar universidades das empresas, criar programas de compras locais, apoiar pequenas indústrias, fortalecer cursos técnicos e atrair investimentos que transformem conhecimento em fábrica.
A universidade não pode ser apenas lugar de formação de mão de obra que depois vai embora. Ela precisa funcionar como uma usina de empresas locais.
O comércio também deve participar dessa retomada. Supermercados, atacarejos, lojas de material de construção, farmácias, distribuidores e órgãos públicos podem ajudar a criar mercado para quem produz aqui. Comprar localmente não deve ser apenas um gesto sentimental; deve ser uma estratégia econômica.
A cidade ainda preserva setores importantes, como a indústria calçadista, o telemarketing e a área médica.
A indústria calçadista gera emprego, movimenta fornecedores, exige logística, mão de obra treinada, manutenção, embalagem e capacidade de produção em escala. Mostra que Campina Grande ainda sabe fabricar e competir.
O telemarketing e o atendimento remoto também têm grande peso na economia local. Empregam milhares de pessoas, especialmente jovens, e injetam renda no comércio e nos serviços. O desafio é fazer esse setor evoluir para atividades mais qualificadas, como suporte técnico, vendas digitais, tecnologia da informação e serviços corporativos especializados.
A área médica talvez seja hoje uma das maiores expressões da centralidade regional de Campina Grande. Hospitais, clínicas, laboratórios, centros de diagnóstico, cursos de medicina e profissionais especializados formam uma cadeia econômica importante. A medicina movimenta também hotelaria, transporte, alimentação, farmácias, equipamentos, manutenção e formação profissional.
A cidade não deve escolher entre indústria, serviços e saúde. Deve integrar tudo isso em uma estratégia maior de desenvolvimento.
A indústria calçadista mantém viva a cultura produtiva. O telemarketing amplia o emprego formal e pode evoluir para serviços digitais. A área médica consolida Campina Grande como polo regional de conhecimento, atendimento e inovação.
Campina Grande precisa fortalecer o que ainda tem, recuperar o que perdeu e criar o que ainda não existe. O futuro da cidade pode estar na combinação entre indústria, tecnologia, saúde, serviços qualificados, reciclagem, alimentos, calçados, educação e inovação.
A nova indústria não será igual à antiga. Terá mais automação, controle de qualidade, design, reciclagem, eficiência energética, logística, marca e inteligência. Mas continuará tendo algo essencial: produção local.
A pergunta é simples: Campina Grande quer ser apenas uma praça de consumo ou quer voltar a ser uma cidade produtora?
Campina Grande precisa retomar sua vocação produtiva. Não por saudosismo, mas por sobrevivência econômica. Uma cidade que apenas compra fica dependente. Uma cidade que produz ganha autonomia.
Porque uma cidade que deixa de produzir o que sabe fazer começa, lentamente, a perder o controle do próprio destino.