
O texto do escritor Palmarí de Lucena explica o significado da expressão dark horse, usada para descrever um candidato ou competidor pouco conhecido que surpreende ao vencer. Diferencia esse conceito de underdog, que é o azarão reconhecido desde o início. Mostra como a metáfora passou das corridas de cavalos para a política, citando exemplos como Jimmy Carter, Barack Obama, Donald Trump e Jair Bolsonaro. A conclusão destaca que mudanças históricas muitas vezes surgem de forma discreta e desafiam previsões. Confira íntegra...
Toda corrida começa antes da largada.
Muito antes de os cavalos alcançarem a pista, alguém já decidiu quem deve vencer. Especialistas analisam retrospectos, apostadores calculam probabilidades, comentaristas distribuem favoritismos e o público escolhe em quem acreditar. Quando o portão finalmente se abre, boa parte da corrida parece já ter sido disputada na imaginação de quem a observa.
Mas existe um personagem que raramente desperta interesse.
Ele não ocupa as manchetes, não concentra as apostas nem recebe atenção das câmeras. Corre discretamente, quase confundido com o cenário, até que, inesperadamente, surge na reta final e ultrapassa todos os favoritos.
Foi dessa imagem que nasceu uma das metáforas mais fascinantes da língua inglesa: dark horse.
A expressão apareceu nas corridas de cavalos da Inglaterra do século XIX para designar o competidor praticamente desconhecido que surpreendia apostadores e espectadores ao vencer uma prova considerada previsível. Desde então, escapou das pistas e passou a explicar fenômenos que se repetem na política, na economia, no esporte e até na vida cotidiana.
Talvez porque exista uma característica comum a todas essas áreas: nossa permanente dificuldade de reconhecer as mudanças enquanto elas ainda estão acontecendo.
Existe, porém, uma confusão frequente.
Muitos tratam dark horse como sinônimo de underdog. Não é.
O underdog é o azarão clássico. Todos sabem quem ele é. Sua fragilidade é conhecida desde o início da disputa. Se vencer, terá superado obstáculos evidentes.
O dark horse pertence a outra categoria. Ele não é necessariamente mais fraco. Apenas permanece invisível. Corre fora do foco, distante dos prognósticos, ignorado pelos observadores. Sua vitória não surpreende porque derrota adversários mais fortes, mas porque quase ninguém percebeu que ele estava realmente na corrida.
Essa diferença talvez explique por que a política adotou a expressão com tanta naturalidade.
Costumamos imaginar que eleições são disputas entre candidatos. Não são apenas isso. São encontros entre expectativas e frustrações, entre confiança e desencanto, entre o presente visível e mudanças subterrâneas que lentamente remodelam uma sociedade.
É justamente nesses períodos de transição que surgem os chamados dark horses.
A história recente oferece exemplos eloquentes. Jimmy Carter apareceu quando os Estados Unidos procuravam reconstruir sua confiança depois de Watergate. Barack Obama transformou uma candidatura inicialmente tratada com cautela em um movimento capaz de renovar a comunicação política de uma geração. Donald Trump rompeu previsões que pareciam consolidadas durante a campanha de 2016.
No Brasil, muitos observadores recorreram ao mesmo conceito para interpretar a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Embora acumulasse longa experiência parlamentar, sua candidatura permaneceu, durante parte significativa do processo eleitoral, distante das expectativas predominantes entre analistas políticos. O desgaste dos partidos tradicionais, a crise institucional, o crescimento das redes sociais e a reorganização do comportamento eleitoral modificaram rapidamente o ambiente da disputa.
Vale insistir em um ponto frequentemente esquecido.
Classificar alguém como dark horse não significa emitir aprovação, reprovação ou qualquer julgamento sobre seu governo, suas ideias ou sua trajetória. A expressão descreve um fenômeno político, não um juízo moral.
O documentário britânico Dark Horse narra a história real de um cavalo criado por moradores de uma pequena comunidade do País de Gales. Anos mais tarde, o mesmo título foi escolhido para uma cinebiografia dedicada à campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Em ambos os casos, a metáfora está na trajetória improvável.
Curiosamente, nos dois filmes o personagem principal talvez não seja o cavalo nem o político.
O verdadeiro protagonista é a surpresa.
Existe uma tentação permanente em toda sociedade: acreditar que o amanhã será apenas uma continuação organizada do presente. Entretanto, a história continua avançando por caminhos discretos, alimentada por mudanças que amadurecem lentamente até encontrarem alguém capaz de lhes dar voz.
Os favoritos continuarão existindo. Muitos vencerão. Mas, de tempos em tempos, surgirá alguém correndo por fora, lembrando que nenhuma sociedade pode ser compreendida apenas pelas aparências.
O dark horse não derrota apenas seus adversários. Ele derrota, sobretudo, a confortável ilusão de que a história pode ser prevista com absoluta segurança. Talvez seja exatamente por isso que continuamos fascinados por ele.
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