
O cineasta Durval Leal aborda, em seu comentário, os problemas de trânsito que se verificam em João Pessoa. “A cidade cresceu sem conseguir administrar a própria expansão. Em bairros da orla, uma casa antiga de quatrocentos ou quinhentos metros quadrados desaparece para surgir um prédio com trinta ou quarenta apartamentos. Onde existia um carro, agora aparecem vinte”, alerta. Confira íntegra…
Eu aprendi cedo que educação acontece quando existe perda, quando pesa no bolso. Perda concreta. Dinheiro. Tempo. Prestígio.
Meu pai, economista, vindo de família pobre, repetia isso sem filosofia doméstica: quem não paga pelo erro não aprende convivência. As vivem sem educação coletiva.
O Brasil inteiro parece construído exatamente na direção contrária. Aqui, o erro premiado virou uma bactéria inserida no cotidiano das pessoas e na administração pública.
Isso aparece primeiro nas pequenas coisas. O sujeito avança sobre a faixa de pedestre porque sabe que nada acontecerá. Fecha o cruzamento em cima do quadriculado amarelo porque acredita que o direito individual dele vale mais que o fluxo da cidade inteira. Para em fila dupla, buzina um segundo após abrir o sinal e ainda se considera vítima da lentidão urbana. A cidade brasileira virou um espaço onde quase ninguém aceita dividir nada, mas todos exigem prioridade absoluta.
João Pessoa entrou nisso há muito tempo. A cidade cresceu sem conseguir administrar a própria expansão. Em bairros da orla, uma casa antiga de quatrocentos ou quinhentos metros quadrados desaparece para surgir um prédio com trinta ou quarenta apartamentos. Onde existia um carro, agora aparecem vinte.
O problema não é a verticalização em si. O problema é fingir que a infraestrutura permanece a mesma enquanto a densidade urbana explode, comm uma arrecadação de imposto frontalmente nociva.
A matemática urbana não fecha mais, mas os discursos eleitorais, dos mesmos que já passaram, e não resolveram nada, apenas enriqueceram à custa do erário e dos otários, como eu, continuam funcionando como se estivéssemos em 1585.
A cidade trava porque ninguém planejou circulação pensando em gente. Tudo foi desenhado para automóveis. E mesmo assim os automóveis não circulam. As calçadas desaparecem, os cruzamentos viram gargalos permanentes e os pedestres passam a disputar centímetros com motocicletas, lixeiras, postes, ambulantes, mesas de bar e carros estacionados irregularmente.
Em muitos bairros, caminhar virou exercício de risco físico. O cidadão não tem espaço sequer para atravessar a rua com dignidade.
Não acredito nos administradores atuais e passados, e muito menos que teremos turismo sustentável. Digo isso sem eufemismos ou revolta, pois circulo andando no centro da cidade e em alguns bairros ditos “nobres”. Circule próximo à Rodoviária de João Pessoa, na cidade baixa. Circule a pé pelo Centro historico.
Atenção, olhe para o chão para não ir ao além, pelo sinistro do acidente de cair ou ser atropelado, por um ônibus desvairado.
Existe uma relação direta entre a degradação urbana e a degradação institucional. A mesma cultura que aceita parar sobre uma faixa de pedestre aceita também a naturalização da corrupção política.
O brasileiro aprendeu a conviver com o absurdo porque quase nunca vê consequência proporcional. O político envolvido em escândalo retorna alguns anos depois em redes sociais, programas de rádio, blogs e entrevistas distribuindo críticas morais contra adversários como se o passado tivesse sido apagado por decreto judicial.
Na Paraíba isso acontece do diante dos olhos de todos. Esse mesmo ex-governador conseguiu, sabe-se lá por quantos dinheiros, ter seus processos arquivados, por um Ministro do Supremo, sem anuência do Ministério Público.
Ver o caso do ex-governador passado da Paraíba, o “Excrotinho”, que, junto com sua gangue dos “girassóis que não soltam as mãos”, teria roubado e pilhado milhões, e agora alardeia sua retorica e críticas sem olhar o próprio rabo dos processos.
E parte da população ainda escuta com naturalidade, e ainda há os compadres que aplaudem. Não se trata de denúncia vazia. Muitos responderam a processos concretos por corrupção, desvios administrativos e formação de quadrilha e esquemas políticos. Parte desses processos terminou arquivada, muitas vezes sustentada em decisões monocráticas do Supremo Tribunal Federal que geraram questionamentos públicos sobre coerência institucional.
O problema não é apenas jurídico. O problema é moral e pedagógico. Quando alguém atravessa décadas de denúncias, investigações e suspeitas sem sofrer consequência concreta, a mensagem social é clara: o sistema tolera quase tudo para quem possui influência suficiente, e dinheiro com laranjas ou enterrados.
O cidadão comum percebe isso rapidamente. Aprende que existe uma diferença brutal entre a lei escrita e a aplicação real da lei. Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e outros ministros passaram a ocupar um espaço de protagonismo político que ultrapassa a função tradicional da magistratura. Não é mais possível discutir a vida institucional brasileira fingindo neutralidade absoluta. Decisões monocráticas passaram a interferir diretamente em eleições, investigações, suspensão de atos parlamentares e reorganização de forças políticas nacionais.
Parte da população enxerga nisso defesa institucional, outra parte vê concentração excessiva de poder individual. O debate deixou de ser técnico e ético, hoje é PeTralhas x Bolzolóides.
Enquanto isso, o cotidiano segue deteriorado. O sujeito passa três horas preso no trânsito e descarrega a frustração buzinando para um carro que parou antes da faixa de pedestre. Parece detalhe pequeno, mas não é. Aquela buzina é a tradução psicológica de uma sociedade inteira que perdeu capacidade de convivência coletiva, de buscar harmonia ou uma gota de gentileza.
Todo mundo vive pressionado por tempo, dívida, prestação, combustível, aluguel, insegurança e medo de perder renda. O trânsito apenas expõe isso de forma visível. Nínguem quer perder 33 segundos ou 3,70 metros, no trânsito.
A frase “tempo é dinheiro” nunca me convenceu completamente. Tempo também é desgaste, saúde mental e expectativa de vida. Uma pessoa que atravessa diariamente congestionamentos de duas horas não está apenas perdendo produtividade econômica. Está perdendo energia emocional, paciência e capacidade de convivência. As cidades brasileiras foram organizadas para moer lentamente o cotidiano das pessoas comuns enquanto os discursos oficiais continuam falando em modernização urbana.
Hoje pergunto: onde estão os recursos da Outorga Onerosa aberta ou cedida pela gestão municipal aos construtores do Altiplano para construir um bairro de alto padrão, cuja infraestrutura apresenta-se questionável?
A ironia aparece justamente aí. Os mesmos gestores que inauguram viadutos, rotatórias ou pequenas obras cosméticas aparecem depois em campanhas eleitorais defendendo mobilidade, inovação e qualidade de vida. Muitos sequer caminham pelas áreas onde a população anda diariamente. Em vários bairros de João Pessoa, o pedestre simplesmente não existe no planejamento urbano. Existem carros, construtoras, estacionamentos com custos altíssimos sem retorno aparente.
Tudo é improviso, uma propaganda imobiliária. O resto vai sendo adaptado na força da paciência e da resiliências dos eleitores malcomunados com seus pares.
Quando surgem operações policiais, delações premiadas ou investigações sobre desvios financeiros, o debate rapidamente vira disputa narrativa. Fala-se em perseguição, politização, seletividade ou garantismo jurídico. Mas raramente se discute o efeito concreto do dinheiro desviado. Recursos públicos ou privados retirados de circulação econômica atingem diretamente serviços, crédito, investimentos e arrecadação. O prejuízo nunca desaparece. Apenas muda de endereço social.
O sistema bancário brasileiro também participa desse ambiente de distorção. A lógica da usura institucionalizada transformou dívida em modelo permanente de sobrevivência econômica. O cidadão financia carro, apartamento, cartão de crédito e consumo cotidiano pagando juros absurdos, enquanto grandes operadores financeiros conseguem renegociações bilionárias, recuperação judicial ou articulações políticas sofisticadas. O rigor existe para baixo. Para cima, quase sempre aparece uma solução jurídica elegante.
Os grupos econômicos têm o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal como seus parceiros de convescotes.
No final, tudo retorna à ausência de consequência real. A cidade não pune quem ocupa a calçada. O trânsito não pune quem bloqueia cruzamento. O sistema político frequentemente não pune quem desviou recursos públicos. O ambiente institucional protege quem possui influência suficiente para sobreviver até o próximo ciclo eleitoral ou judicial. E a população aprende observando isso diariamente, sem precisar ler teoria política nenhuma.
Talvez por isso a imagem mais precisa da cidade seja a ausência de calçadas. Não apenas pela precariedade física, mas pelo significado político. Uma cidade sem calçada é uma cidade onde o cidadão não consegue caminhar plenamente. E um cidadão que não consegue circular com segurança também perde parte da própria cidadania.
João Pessoa continua crescendo, verticalizando, vendendo modernidade imobiliária e produzindo congestionamentos, desprezando o bem estar e a qualidade de vida que merecemos.
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