PENSAMENTO PLURAL Insensatez intolerável, por Durval Leal Filho

Em seu comentário deste domingo, o cineasta Durval Leal observa, como “a classe política que nos representa no Congresso Nacional e do outro lado, a Justiça que encarna o que há de mais venal, de mais torpe, de mais triste, aquela em que o cego que mata o que tem luz, ou o que um dia poderá enxergar com a crueza da clareza em que vivemos”. Confira íntegra...

Não é para chocar; é para dar sentido à leitura, à leitura crítica, ao ato de ler, compreender e dimensionar o que se lê. Vivemos, ou eu vivo, cercado de intolerância, hipocrisia, insensatez e uma falta de leitura que chega a ser terrível.

A leitura parte do ponto da educação básica: saber os princípios essenciais, sobretudo o respeito ao outro, à fé, o afeto, ao carinho, à atenção, ao espaço do outro diante de nós. E, sobretudo, projetar nele aquilo que sentimos, aquilo como nos vemos, aquilo que lemos em nós mesmos.

Às vezes, não me vejo muito bem. Às vezes, me vejo excessivamente descrente e incerto de tudo. Minha intolerância nasce, muitas vezes, de não ter nascido com um delay maior entre a percepção e a resposta. Essa é minha maior falha.

A resposta me chega de imediato, não reflito muito. E escarro, principalmente quando percebo a ironia, a ignorância e o meu fracasso refletido no outro. É triste me reconhecer na crueldade e na pequenez alheias, porque aí eu também me igualo. E, muitas vezes, necessariamente, me igualar me faz crescer, mas também me faz diminuir diante de mim mesmo, por perceber e ainda ter a incrível paciência de tolerar aquilo sem perceber a leitura crítica.

Sempre achei curiosa a frase popular: “A MEDIDA DA TERRINA É DO TAMANHO DA COALHADA”.

Muita gente escuta isso como um regionalismo doméstico qualquer, uma frase antiga perdida entre cozinha, leite e lembrança de interior. Mas ali existe uma interpretação inteira da sociedade. A terrina tinha limite porque a distribuição também tinha. Quem servia não era quem comia melhor. Gilberto Freyre entendeu isso perfeitamente quando observou a arquitetura moral da casa-grande.

A coalhada não era apenas alimento. Era posição social. Era hierarquia. Era a dimensão da fome permitida. A terrina delimitava até onde chegava o privilégio. Parece uma imagem delicada, quase rural, mas dentro dela existe violência histórica.

O Brasil sempre teve talento para esconder desigualdade dentro de metáforas suaves. Nossa brutalidade frequentemente vem servida em louça bonita, acompanhada de discurso cordial, verniz civilizatório e aparência de equilíbrio social.

Vou colocar alguns nomes de situações espúrias e vexatórias que são singularizadas… “Operação Sucupira” que fez referência a cidades fictícias onde o venal se torna rotina, como em “O BemAmado”… “Operação Satiagraha” foi uma operação que investigou um grande esquema de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha, envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, dono do Banco Opportunity…

“Operação Calvário”, do GAECO da Paraíba, nessa bela semântica esconde um dos maiores roubos e corrupção dos recursos público na saúde e na educação, de um pequeno estado do Brasil, realizado por um ex-governador o “Excrotinho”.

Por isso me chama atenção outra frase, infinitamente mais agressiva e mais honesta na sua brutalidade: “A MEDIDA DO CU É DO TAMANHO DA ROLA”.

Não existe elegância social nessa construção. Existe anatomia, imposição, submissão e limite físico. A frase é vulgar apenas para quem ainda acredita que a sociedade funciona através de delicadezas morais, aqueles que vivem na hipocrisia pudica.

Na verdade, ela resume uma percepção antiga da natureza humana, onde quase tudo gira em torno da relação entre quem impõe e quem suporta.

E talvez seja exatamente isso que provoque tanto desconforto. Não é a palavra. É a revelação. O palavrão apenas destrói a maquiagem da hipocrisia.

Coloco toda essa brincadeira substantiva e adjetiva para mostrar o quanto é diáfano todo esse universo literário, narrativo, territorial, telúrico que um papel em branco suporta.

A medida do cu é a rola: tudo quer dizer a mesma dimensão, porque tudo está na mesma medida. Gilberto Freyre dava um espaço à senzala, ele dava espaço, e mostrava como era abjeta a condição humana. A casa-grande era magistral, mas, quando colocada na sua medida, ela é a medida do que nós defecamos, do que nós jogamos fora, do que há de pior.

Infelizmente, toda essa comparação escatológica, deseducada e direta aponta para o que há de mais absurdo no Brasil. A classe política que nos representa no Congresso Nacional e do outro lado, a Justiça que encarna o que há de mais venal, de mais torpe, de mais triste, aquela em que o cego que mata o que tem luz, ou o que um dia poderá enxergar com a crueza da clareza em que vivemos.

O sujeito tolera corrupção sofisticada, sentença enviesada, roubo institucionalizado, mentira televisionada, cinismo parlamentar e aliança espúria. Desde que sejam dentro dos seus sentimentos de PeTralhas de esquerda ou Bolzolóides de direita.

Mas perde a compostura diante de uma frase escatológica porque ela o obriga a abandonar o teatro da falsa superioridade intelectual e o conforto da neutralidade fingida, a “intelligentzia” corruptível universitária empresarial.

Foi olhando para isso que comecei a entender o fascínio perturbador que sempre tive, nas minhas tardes de solidão, na adolescência, “viajando” em “O Jardim das Delícias Terrestres”, de Hieronimus Bosch.

Bosch não pintava apenas o inferno religioso. Pintava a humanidade sem verniz. Corpos misturados a animais, instrumentos transformados em tortura, sexualidade confundida com culpa, prazer virando condenação. Não existe pudor naquele universo porque Bosch parecia compreender uma coisa essencial: o homem raramente se torna monstruoso de repente. Ele apenas normaliza lentamente sua própria degradação.

Na literatura, às escondidas, li Henry Miller, que mergulhou na sexualidade humana sem pedir desculpas morais. Em Charles Bukowski encontrei os bêbados, fracassados e miseráveis em espelhos da decadência moderna, que habitavam no nosso entorno social.

Já em Zé Limeira, com a família de Orlando Tejo, que vieram ser nossos vizinhos, no Miramar, assim vim conhecer o universo limeiriano que desmontava qualquer lógica racional através do absurdo sertanejo, criando um delírio que muitas vezes parecia mais verdadeiro que a própria realidade.

O que une esses autores não é pornografia. É ausência de hipocrisia. Eles compreenderam que a degradação humana não desaparece quando é escondida. Apenas muda de roupa. Bukowski enxergava isso nos bares. Miller via isso na sexualidade urbana. Zé Limeira encontrava isso na loucura popular transformada em verso. Bosch pintava isso no inferno na Terra.

E o Brasil resolveu institucionalizar tudo isso como rotina política e estratégia espúria de sobrevivência na degradação pública da ética e da moral.

Hoje existe uma espécie de grande teatro moral no país. Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro aparecem como polos opostos de uma guerra emocional infinita, PeTralhas X Bolzolóides, que não enxergam o próprio rabo a partir da própria cegueira de suas sombras.

Assim, vejo e percebo, sem ser hipócrita em público: o cu são os políticos, homens torpes, que roubam, matam e, com cinismo pleno, tentam se desfazer, enganar a sociedade e, quando estão reunidos em assembleia, roubam tudo de uma população.

Olho para o Congresso Nacional hoje, para PT, PL, União, PSOL, e vejo o lado mais desprezível do humano deste país. E o mais torto de tudo é perceber que existe uma inteligência burra, uma esquerda que excreta a direita e uma direita que excreta a esquerda, porque os lados são inversos, mas são iguais ao espelho.

A tristeza não é ser pudico nem hipócrita. A questão é que estamos colocando em cena o que há de pior, aquilo que o cu poderia execrar. E assim a maldade não está apenas na crueldade de uma frase; está em perceber-se, necessariamente, ideologicamente, diante de si, sem esconder todas as terrinas e bacias, os itens e os dispostos do humano.

E talvez por isso frases populares tão brutais sobrevivam ao tempo. Porque o povo, mesmo sem teoria acadêmica, frequentemente percebe o essencial da natureza humana. A frase da terrina fala de desigualdade estrutural. A frase escatológica fala de imposição e submissão. Ambas revelam relações de poder.

Ambas expõem limites humanos. Ambas desmontam a hipocrisia civilizatória que tenta esconder violência social sob palavras elegantes.

O Brasil atual vive uma estranha convivência entre refinamento discursivo e degradação moral profunda. Há ministros citando estado de Direito e democracia enquanto acumulam poderes excepcionais. Há parlamentares defendendo família enquanto negociam verbas obscuras, para suas amantes. Há empresários pregando meritocracia sustentados por relações privilegiadas, saqueando o Estado.

No fim, talvez o problema não seja o excesso de palavrões, mas a falta de honestidade intelectual para reconhecer o tamanho da decomposição ética que nos cerca.

O grotesco não nasceu da linguagem popular. O grotesco nasceu da institucionalização da esperteza como método político nacional. Bosch pintou isso em silêncio medieval. Bukowski bebeu isso em copos sujos. Zé Limeira transformou isso em delírio poético. O Brasil resolveu transformar tudo em rotina política, administrativa e judiciária.

E a pior parte talvez seja perceber que ainda existe gente chocada com a palavra “cu”, mas perfeitamente confortável diante de um país saqueado com elegância técnica, “juridiquês” sofisticado e notas oficiais cuidadosamente redigidas.

 

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