
Em Onde a Língua Cria Paisagem, a obra de Efigênio Moura é apresentada como uma literatura que nasce da oralidade e da experiência cotidiana do Cariri paraibano, aponta o escritor Palmarí de Lucena. “Seus romances transformam a linguagem regional em estrutura narrativa, privilegiando personagens comuns, memória, humor e pertencimento”, pontua. O sertão deixa de ser apenas cenário para tornar-se forma de narrar. Assim, a cultura regional não aparece como tema, mas como a própria matéria da escrita e da percepção do mundo. Confira íntegra…
Toda região inventa uma maneira própria de nomear o mundo. Não se trata apenas de sotaque. A pronúncia é a superfície. Mais fundo estão o ritmo das frases, o tamanho dos silêncios, as palavras que sobrevivem porque nenhuma outra consegue ocupar o mesmo lugar. Há ideias que só existem numa determinada forma de falar. Quando desaparece a fala, desaparece também uma forma de perceber o tempo, a seca, a chuva, a espera e a lembrança.
O Cariri paraibano sempre foi descrito por aquilo que lhe faltava. Faltava água. Faltava verde. Faltavam oportunidades. A literatura, durante muito tempo, repetiu esse inventário da ausência. O sertão tornou-se metáfora da escassez. O homem sertanejo converteu-se em personagem de resistência ou de tragédia. Entre uma condição e outra, pouco espaço restava para a vida comum.
Há outra possibilidade.
Em vez da seca como destino, aparecem as conversas. Em vez do heroísmo, os dias. Em vez da paisagem monumental, os gestos pequenos que quase nunca chegam aos livros: alguém atravessando a feira, uma venda onde o fiado vale mais que um contrato, uma promessa feita ao pé da calçada, a sombra curta de um umbuzeiro, o barulho de uma carroceria levantando poeira na estrada.
A literatura de Efigênio Moura parece nascer exatamente desse deslocamento. Não procura revelar um sertão desconhecido. Também não tenta corrigir a imagem construída ao longo de décadas. Apenas muda o ponto de observação. O que antes servia de fundo transforma-se em matéria principal. O cenário deixa de existir para explicar seus habitantes; são as pessoas que passam a explicar o lugar.
Talvez por isso a linguagem ocupe posição tão decisiva em seus romances.
As palavras chegam carregadas de terra. Não carregam apenas significado; transportam procedência. Cada expressão preserva um modo de convivência, uma memória coletiva, um acordo silencioso entre aqueles que compartilham a mesma paisagem. Traduzir essa fala para um português mais uniforme significaria perder precisamente aquilo que ela comunica de mais profundo: a experiência de viver naquele território.
Não há esforço para folclorizar a oralidade nem para transformá-la em curiosidade linguística. Ela simplesmente existe, como existe uma cerca de pedra, um açude vazio ou um terreiro depois da chuva. O leitor não encontra um glossário; encontra uma cadência. Aos poucos percebe que compreender uma língua depende menos das palavras do que do mundo que as sustenta.
Essa talvez seja uma das escolhas mais discretas de sua escrita.
Os personagens raramente ocupam o centro por feitos extraordinários. Permanecem próximos daquilo que a literatura costuma ignorar: gente que negocia, espera, planta, recorda, conta causos, exagera histórias, cria apelidos, mede o tempo pelas festas religiosas, pela colheita, pelas estiagens e pelos reencontros. São vidas em que a narrativa não nasce do acontecimento excepcional, mas da repetição paciente dos dias.
Mesmo quando a ficção toca episódios históricos — o cangaço, as migrações, as secas, as transformações do interior — eles aparecem menos como monumentos do passado do que como sedimentos da memória. A História permanece ali, mas dissolvida na experiência cotidiana, misturada às conversas e às lembranças, como acontece na vida real.
Há um detalhe recorrente em seus livros que talvez passe despercebido numa primeira leitura: quase ninguém explica quem é. As pessoas simplesmente falam. Não justificam sua maneira de existir. Não traduzem seus costumes para um observador de fora. A narrativa parece confiar que o leitor suportará o estranhamento inicial até perceber que o estranho talvez seja apenas o hábito de considerar universais apenas algumas formas de viver.
Essa recusa em oferecer mediação modifica a posição de quem lê. Já não é possível permanecer observando o sertão à distância, como quem contempla uma paisagem exótica. É preciso entrar na cadência da conversa, aceitar outro ritmo de percepção, reconhecer que determinadas palavras carregam mais tempo do que definição.
Talvez seja por isso que seus romances sejam menos livros sobre o Cariri do que livros escritos a partir dele. Existe uma diferença importante entre ambientar uma narrativa numa região e permitir que a própria região determine sua respiração. O espaço deixa de funcionar como cenário e passa a organizar a estrutura da narrativa. As pausas, o humor, a religiosidade, o modo de construir o diálogo e até a duração das cenas parecem obedecer ao mesmo compasso das estradas, das feiras e das casas espalhadas pela caatinga.
No conjunto, forma-se uma literatura em que a geografia não aparece como limite, mas como método. Quanto mais específica se torna a experiência narrada, menos ela depende de explicações. A precisão substitui a generalização. A cultura regional deixa de ser um tema e passa a constituir a própria matéria da linguagem.
No fim, talvez reste apenas isto: cada lugar produz uma maneira singular de contar o mundo. Enquanto essa narrativa continua sendo escrita, o território permanece vivo, não apenas na memória de quem o habita, mas também na língua que continua capaz de pronunciá-lo.
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