
O escritor Palmarí de Lucena revisita a obra Max Havelaar, de Multatuli, como chave moral para compreender o poder contemporâneo. Mais que denúncia colonial, o romance expõe a transformação da injustiça em procedimento administrativo, lógica que persiste hoje sob rótulos como “gestão” e “realismo”. Da Groenlândia à política global, a violência raramente se impõe pela força: normaliza-se pela burocracia, dilui responsabilidades e anestesia a indignação, até que a democracia funcione sem memória moral. Confira íntegra...
Há livros que se leem como documentos históricos e outros que funcionam como instrumentos de diagnóstico moral. Max Havelaar, publicado em 1860 por Multatuli, pertence decididamente ao segundo grupo. Seu valor contemporâneo não reside na descrição do colonialismo holandês nas Índias Orientais, mas na anatomia de um tipo de poder que sobreviveu à queda dos impérios: o poder que transforma a injustiça em procedimento administrativo.
Max Havelaar não é um insurgente. É um funcionário público. Sua fé não está na ruptura, mas na correção institucional. Ele acredita que a violência, uma vez descrita com precisão, deixará de ser tolerável. Seu drama começa quando descobre que o sistema não ignora os abusos — ele os conhece, os classifica e os redistribui em formulários, pareceres e cadeias hierárquicas. A injustiça não desaparece diante da racionalidade; ela se reorganiza.
O colonialismo retratado por Multatuli não depende da brutalidade constante, mas da eficiência. Ele opera segundo uma lógica que Max Weber reconheceria: uma racionalidade formal tão bem calibrada que permite aos agentes cumprirem seus deveres sem jamais se confrontarem com o todo. Cada um responde apenas por sua função; o resultado — a violência — surge como efeito colateral, não como decisão.
Essa estrutura não pertence ao século XIX.
O mundo contemporâneo continua a operar segundo o mesmo princípio, ainda que sob um vocabulário renovado. Hoje, a exploração raramente se apresenta como conquista ou dominação. Ela se expressa como “gestão”, “segurança”, “interesse estratégico”, “estabilidade” ou “realismo”. A linguagem não nega a injustiça; apenas a torna aceitável, previsível, administrável.
Nesse sentido, o caso da Groenlândia surge menos como exceção do que como sintoma. O território aparece no debate internacional não como espaço habitado, mas como ativo geopolítico: rotas marítimas emergentes, minerais estratégicos, posição no Ártico. Discute-se quem pode protegê-lo, explorá-lo ou dissuadir outros de fazê-lo. Raramente se pergunta o que seus habitantes desejam. Como em Lebak, o território é abstraído; a população, tratada como variável secundária.
Não é necessário recorrer a analogias históricas estridentes. Não se trata de afirmar que o colonialismo retornou em sua forma clássica, mas de reconhecer sua continuidade funcional. A violência moderna raramente se apresenta como exceção. Ela se estabiliza como normalidade. Hannah Arendt observou que o mal, quando burocratizado, perde o aspecto monstruoso e ganha aparência de rotina. Em Max Havelaar, essa banalidade não é acidental — é condição de funcionamento.
Havelaar fracassa não por ingenuidade moral, mas por confiar demais na transparência institucional. Ele acredita que a verdade, uma vez exposta, produzirá correção. O romance sugere o contrário: sistemas complexos aprendem a absorver a crítica sem se alterar. A denúncia vira dado. O dado vira estatística. A estatística vira nota de rodapé.
Aqui, a lição de Václav Havel ecoa com força inesperada. O problema central não é a mentira explícita, mas a vida dentro de uma estrutura que exige pequenas concessões diárias à falsidade. Quando a linguagem oficial se afasta sistematicamente da experiência vivida, a injustiça não precisa ser defendida — basta ser descrita em termos neutros.
A palavra “realismo”, tão celebrada no vocabulário contemporâneo da política internacional, cumpre função semelhante. Ela não descreve o mundo como ele é, mas como o poder prefere que seja aceito. Serve para desqualificar a ética como ingenuidade e a indignação como excesso emocional. Em nome do realismo, normaliza-se aquilo que deveria permanecer intolerável.
O efeito cumulativo desse processo é menos dramático do que uma ruptura autoritária, mas talvez mais duradouro. A democracia não precisa ser derrubada; basta que funcione sem memória moral. As instituições permanecem de pé, operantes, respeitáveis — mas deslocadas de qualquer obrigação substantiva com justiça ou verdade.
Max Havelaar permanece atual porque nos lembra que o maior risco político não é a ausência de normas, mas sua aplicação seletiva; não a falta de discursos morais, mas seu uso ornamental. O romance não pede revoluções nem promete redenções. Pede lucidez — uma virtude modesta, mas profundamente subversiva.
Ler Havelaar hoje é reconhecer que a violência moderna raramente grita. Ela administra. E, enquanto administra, ensina o mundo a aceitar o inaceitável como parte da ordem natural das coisas.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.