
O escritor Palmarí de Lucena aponta, em seu texto, sobre recente advertência de Leão IV, ao criticar a ameaça de devastação dos iranianos pelo presidente Trump. “A ameaça de destruir infraestruturas civis — pontes, usinas, sistemas essenciais à vida cotidiana — não é apenas uma violação potencial de normas internacionais. É, sobretudo, um sinal preocupante de banalização da guerra como linguagem política”, pontua. Confira íntegra...
A recente advertência do papa Leão XIV, ao classificar como “verdadeiramente inaceitável” a ameaça de devastação total do Irã, recoloca no centro do debate internacional uma questão que vai além da geopolítica imediata: os limites éticos do poder. Ainda que sem mencionar diretamente o presidente dos Estados Unidos, a referência foi inequívoca — e o gesto, raro. Não se trata apenas de uma divergência diplomática, mas de um confronto entre duas visões de mundo.
De um lado, a retórica da força, que busca na intimidação um instrumento de dissuasão. De outro, a tradição moral que insiste em lembrar que nem tudo o que é possível é, por isso, aceitável. Ao invocar não apenas o direito internacional, mas sobretudo a dimensão ética da ameaça, o pontífice aponta para um aspecto frequentemente negligenciado nas crises contemporâneas: a desumanização do adversário.
A ameaça de destruir infraestruturas civis — pontes, usinas, sistemas essenciais à vida cotidiana — não é apenas uma violação potencial de normas internacionais. É, sobretudo, um sinal preocupante de banalização da guerra como linguagem política. Quando líderes recorrem a esse tipo de discurso, ampliam o risco de escalada e reduzem o espaço para soluções negociadas.
Não é a primeira vez que a Igreja Católica se vê diante do desafio de confrontar a lógica da guerra. Ao longo do século XX, documentos pontifícios estabeleceram balizas morais que permanecem atuais. Na encíclica Pacem in Terris, de 1963, João XXIII afirmava que a paz verdadeira só pode ser construída sobre a verdade, a justiça, o amor e a liberdade — e não sobre o medo ou a ameaça. Poucos anos depois, em meio às tensões da Guerra Fria, Paulo VI, na Populorum Progressio, lembraria que o desenvolvimento integral dos povos é condição indispensável para a paz duradoura.
Essa tradição foi aprofundada por João Paulo II, que, diante dos conflitos do fim do século XX, insistiu reiteradamente na primazia da diplomacia e no caráter excepcional — e cada vez menos justificável — do recurso à guerra. Já no século XXI, o papa Francisco, na encíclica “Fratelli Tutti”, retomou com vigor essa linha de pensamento ao afirmar que a guerra é um “fracasso da política e da humanidade”, denunciando a ilusão de soluções violentas em um mundo interdependente.
À luz desse magistério, a fala de Leão XIV não surge como um rompimento, mas como continuidade. Sua rejeição ao uso de justificativas religiosas para a guerra reforça um ponto central dessas encíclicas: a fé não pode ser instrumentalizada para legitimar a destruição. Ao contrário, deve servir como fundamento para a reconciliação.
O episódio ganha ainda mais relevância por ocorrer em um contexto de crescente polarização global, no qual conflitos regionais rapidamente adquirem dimensões sistêmicas. O Estreito de Ormuz, mencionado na crise, é um ponto nevrálgico para o comércio internacional de energia. Qualquer instabilidade ali tem repercussões diretas na economia global — inclusive para países distantes do epicentro do conflito.
Não é irrelevante que essa voz venha justamente de um pontífice norte-americano. Sua origem confere um peso simbólico adicional à crítica, ao demonstrar que o dissenso em relação à política externa dos Estados Unidos não é monopólio de adversários históricos, mas pode emergir também de dentro de seu próprio universo cultural.
A rápida sequência dos fatos — da ameaça ao anúncio de um cessar-fogo — sugere que, apesar da retórica agressiva, ainda há espaço para a diplomacia. Mas esse espaço é frágil. Depende, em grande medida, da disposição das lideranças em abandonar a lógica do ultimato e reconhecer a complexidade dos conflitos contemporâneos.
Em última análise, o alerta do papa ecoa uma tradição centenária: a paz não se impõe — constrói-se. E, como lembrava <em>Pacem in Terris</em>, ela não pode florescer onde impera o temor, mas apenas onde há compromisso genuíno com a dignidade humana. Em tempos de tensões crescentes, recordar esse princípio não é um gesto de idealismo, mas um imperativo de sobrevivência civilizatória.
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