PENSAMENTO PLURAL Flores não bastam: a realidade das mulheres chefes de família no Brasil, por Palmarí de Lucena

Em “Flores Não Bastam”, a crônica do escritor Palmarí de Lucena retrata a realidade das mulheres chefes de família no Brasil, especialmente mães solo que sustentam lares em meio à precariedade econômica e à ausência de apoio estrutural. O texto aborda a sobrecarga da dupla jornada, a desigualdade social e a invisibilidade enfrentada por milhões de brasileiras que conciliam trabalho, cuidado dos filhos e administração doméstica com recursos limitados. Em tom reflexivo, a narrativa questiona a romantização da resistência feminina no Dia das Mães e defende políticas públicas voltadas à proteção social, geração de oportunidades e valorização da dignidade dessas mulheres. Confira íntegra…

A cidade desperta cedo, mas há quem desperte antes dela. Antes do primeiro ônibus cruzar as avenidas, antes da abertura das padarias e do movimento apressado das ruas, milhares de mulheres brasileiras já iniciaram sua jornada diária tentando equilibrar necessidades ilimitadas com recursos escassos. Carregam bolsas, marmitas, filhos pela mão e preocupações silenciosas no pensamento. São mulheres que, além de cuidar, sustentam, organizam e mantêm de pé lares inteiros.

No Brasil, a mulher chefe de família deixou de ocupar um espaço excepcional para tornar-se presença concreta em milhões de residências. Em muitos lares, é dela a responsabilidade pelo sustento financeiro, pela administração doméstica, pelo acompanhamento da educação dos filhos e pela condução das demandas cotidianas que mantêm a família funcionando. Ainda assim, grande parte da estrutura econômica e social parece permanecer organizada sob a lógica de famílias sustentadas por duas rendas e responsabilidades compartilhadas de maneira equilibrada — realidade distante da vivida por inúmeras mães solo brasileiras.

A matemática da sobrevivência diária revela-se severa. O valor do aluguel, o custo da alimentação, o transporte, os medicamentos e a criação dos filhos frequentemente ultrapassam a capacidade de uma única renda. Quando há desemprego, não existe outra fonte financeira para amortecer a crise; quando uma criança adoece, não há com quem dividir o cuidado; quando o orçamento se esgota antes do fim do mês, resta apenas o esforço silencioso de reorganizar prioridades e renunciar às próprias necessidades.

Existe também uma dimensão invisível desse cotidiano: a dupla jornada. Muitas dessas mulheres enfrentam longas horas de trabalho fora de casa e, ao retornarem, iniciam uma segunda rotina igualmente exaustiva e não remunerada. Cozinham, limpam, organizam tarefas escolares, cuidam de familiares, administram conflitos e mantêm a estabilidade emocional do lar enquanto tentam ocultar o próprio cansaço. O descanso, para muitas, tornou-se raro; o tempo dedicado a si mesmas, quase inexistente.

Essa realidade se agrava diante das desigualdades sociais históricas do país. Entre mulheres negras e periféricas, que representam parcela significativa das chefes de família brasileiras, os desafios se ampliam pela informalidade do trabalho, pela ausência de garantias trabalhistas e pela limitação de oportunidades econômicas. São trabalhadoras que movimentam silenciosamente setores essenciais da economia — diaristas, cuidadoras, atendentes, cozinheiras, comerciantes informais — enquanto enfrentam a instabilidade constante da própria sobrevivência.

Ainda assim, persiste no imaginário coletivo certa romantização da resistência feminina. O Dia das Mães, frequentemente retratado por campanhas idealizadas e cenários de conforto, pouco revela sobre a maternidade atravessada por preocupações financeiras, jornadas excessivas e ausência de apoio estrutural. Existe uma maternidade menos visível, porém profundamente presente: a da mulher que administra cada despesa com precisão, que enfrenta transportes lotados pensando nas contas do mês e que, mesmo diante das limitações, continua oferecendo segurança emocional à família.

Talvez resida aí uma das maiores contradições sociais do país: milhões de famílias dependem diretamente da força e da dedicação dessas mulheres, mas ainda lhes são oferecidas condições insuficientes de apoio e proteção. A ausência de creches públicas em tempo integral, as dificuldades de inserção e permanência no mercado formal de trabalho, os salários insuficientes e a fragilidade das políticas públicas voltadas às mães solo revelam uma estrutura que exige resistência permanente sem garantir o suporte necessário.

A transformação dessa realidade demanda mais do que homenagens simbólicas. Requer políticas públicas efetivas e compromisso social contínuo. A ampliação do acesso à educação infantil, o fortalecimento de programas de proteção social, o incentivo à formalização do trabalho, a garantia de moradia digna e mecanismos mais eficientes para assegurar o cumprimento da pensão alimentícia representam medidas capazes de reduzir parte da vulnerabilidade enfrentada por mulheres chefes de família. Igualmente necessária é a construção de uma cultura que compreenda o cuidado familiar como responsabilidade compartilhada e não como atribuição exclusiva de uma única pessoa.

Mais do que exaltar a capacidade de suportar dificuldades, é preciso reconhecer o direito dessas mulheres à dignidade, à estabilidade e à oportunidade. Nenhuma sociedade deveria exigir heroísmo cotidiano como condição mínima de sobrevivência.

Neste Dia das Mães, talvez a reflexão mais necessária seja compreender que flores e homenagens, embora simbólicas, não bastam. É preciso enxergar, com seriedade e responsabilidade, a realidade de mulheres que sustentam o presente enquanto tentam assegurar um futuro mais digno para seus filhos. Porque quando uma mulher chefe de família encontra condições reais de prosperar, não é apenas sua vida que se transforma — fortalece-se a família, amplia-se a esperança e avança, junto com ela, toda a sociedade.

 

Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.