
A vitória de Lula em 2022 contrariou o avanço da direita radical no Brasil e teve repercussão internacional, dada a influência de Bolsonaro e a importância da Amazónia. A crônica do escritor Palmarí de Lucena analisa a diversidade da base bolsonarista, unida pelo antipetismo, pelo conservadorismo e pela desconfiança nas instituições, e mostra como as redes sociais reforçaram essa mobilização. Apesar da derrota eleitoral e dos ataques de janeiro de 2023, o bolsonarismo manteve influência. O resultado demonstrou que a ascensão da direita radical não é inevitável, mas o seu declínio depende de respostas aos problemas sociais e democráticos. Confira íntegra...
Lula, o bolsonarismo e os limites da vaga da direita
Durante vários anos, a direita ganhou terreno em diferentes países. O Brexit, a eleição de Donald Trump em 2016 e a ascensão dos nacionalismos na Europa alimentaram a ideia de que as esquerdas tinham perdido a iniciativa e de que o conservadorismo radical se preparava para ocupar duradouramente o centro da política. Em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro colocou o Brasil nessa corrente. Quatro anos depois, o país contrariou essa tendência.
Em 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva venceu a segunda volta das eleições presidenciais, com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. A diferença foi estreita, mas suficiente para interromper a continuidade de um projeto político que ultrapassara as fronteiras brasileiras e encontrara admiradores noutros países. O resultado não resolvia a divisão do Brasil, mas contrariava a ideia de que o avanço da direita radical era inevitável.
A imprensa internacional deu amplo destaque à eleição. O regresso de Lula, depois da prisão e da recuperação dos direitos políticos, oferecia uma história política extraordinária. Mas o interesse dos jornais estrangeiros ia além da trajetória pessoal do vencedor. Estavam em causa o futuro da democracia brasileira, a Amazónia e o lugar do Brasil no mundo. Bolsonaro tornara-se uma referência para setores da direita nacionalista internacional; a mudança na Presidência tinha, por isso, um significado que excedia a política interna.
Para compreender o alcance do resultado, importa perceber como Bolsonaro reuniu uma base eleitoral tão ampla. O bolsonarismo juntou grupos com interesses diferentes, por vezes contraditórios, que encontraram na mesma candidatura uma forma de expressar descontentamentos, defender valores ou combater adversários comuns.
Setores das classes médias mobilizaram-se contra a corrupção e contra o Partido dos Trabalhadores; empresários e liberais económicos viram na candidatura uma oportunidade para reduzir a intervenção do Estado; segmentos evangélicos identificaram nela a defesa de valores religiosos e familiares; profissionais das forças de segurança apoiaram o discurso de autoridade; e parcelas do agronegócio favoreceram políticas alinhadas com os seus interesses económicos e com a exploração da terra.
Não se tratava de um bloco uniforme. Era uma coligação de interesses que o discurso de Bolsonaro conseguiu aproximar. O antipetismo teve um papel central nessa construção. Os escândalos de corrupção associados a figuras e governos do PT, a recessão económica de meados da década de 2010 e o desgaste dos partidos tradicionais alimentaram uma rejeição que Bolsonaro transformou em força eleitoral. Para uns, votar nele era castigar a esquerda; para outros, significava defender posições conservadoras em matéria de costumes, segurança pública e autoridade. Havia ainda quem visse na sua candidatura uma rutura com um sistema político em que deixara de confiar.
Bolsonaro deu a esses motivos dispersos uma narrativa comum: a de um país ameaçado por elites políticas e culturais que, na sua interpretação, desprezavam os valores dos seus apoiantes. A disputa deixou de ser apenas uma escolha entre programas de governo. Para uma parte do eleitorado, tornou-se um confronto sobre a identidade do Brasil e sobre quem tinha legitimidade para o representar.
As redes sociais ampliaram essa mobilização. Mantiveram os apoiantes ligados ao movimento para além das campanhas eleitorais, fizeram circular mensagens de indignação e reforçaram a desconfiança nos adversários e nas instituições. A contestação da integridade do sistema eleitoral tornou-se uma das expressões mais graves dessa dinâmica.
É importante, contudo, distinguir a diversidade do eleitorado bolsonarista dos setores que recusaram a legitimidade das eleições ou defenderam uma rutura institucional. Entre os votantes de Bolsonaro havia conservadores, eleitores de protesto e pessoas cuja principal motivação era a rejeição do PT. Essa diversidade ajuda a explicar a dimensão do movimento, sem diminuir a responsabilidade de quem procurou desacreditar o processo democrático.
A invasão das sedes dos três poderes, em Brasília, a 8 de janeiro de 2023, mostrou as consequências da contestação do resultado eleitoral. O bolsonarismo, porém, não desapareceu com a saída de Bolsonaro da Presidência. Conservou influência parlamentar, redes de mobilização e uma implantação social que continuaria a condicionar a vida política brasileira.
Esta continuidade ajuda a compreender por que razão a eleição de Lula não pode ser interpretada como uma inversão definitiva da tendência internacional. O resultado contrariou o avanço da direita radical no Brasil, mas não eliminou as condições que favoreceram a sua ascensão. A insegurança económica, as desigualdades, a desconfiança nas instituições e a sensação de abandono continuam a alimentar o descontentamento. Enquanto esses problemas persistirem, haverá espaço para forças políticas que prometam uma rutura com a ordem existente.
Na América Latina, a vitória de Lula juntou-se às mudanças políticas ocorridas no Chile e na Colômbia, reforçando a presença de governos de esquerda na região. O peso do Brasil conferia a essa mudança uma importância particular. A eleição abriu também a possibilidade de recuperar a cooperação climática e de alterar a orientação da política ambiental brasileira, num momento em que a Amazónia ocupava um lugar central nas preocupações internacionais.
As expectativas teriam, contudo, de ser confirmadas por decisões concretas. A proteção da floresta exigiria fiscalização e capacidade de enfrentar interesses económicos instalados. No plano interno, Lula teria de governar uma sociedade polarizada e negociar com um Congresso onde a sua coligação não dispunha de liberdade para impor todas as suas escolhas. Vencer a eleição era apenas o primeiro passo.
A experiência brasileira não anuncia o declínio definitivo da direita radical, mas contraria a ideia de que o seu avanço seja irreversível. A vitória de Lula abriu uma possibilidade política cuja duração dependeria da capacidade do Governo para responder às expectativas sociais e de a democracia brasileira resistir à polarização.
Na noite de 30 de outubro de 2022, o Brasil não resolveu as suas divisões. Fez, porém, uma escolha que contrariou o rumo que muitos consideravam inevitável. A maré não desapareceu, mas deixou de parecer invencível.
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