PENSAMENTO PLURAL Balcão judicial, por Durval Leal Filho

Em sua crônica, o cineasta Durval Leal Filho comenta sobre os eventos promovidos, no exterior, por ministros do Supremo Tribunal Federal. E pontua: “O Supremo Tribunal Federal conseguiu produzir algo ainda mais sofisticado: transformar a aparência de legalidade em espetáculo contínuo. Cinematograficamente, isso não seria chamado de processo. Seria chamado de roteiro”, confira íntegra…

O ditado antigo dizia que “só reclama do pirão quem não come dele”.

A frase, repetida nas esquinas, nas mesas de bar e nas redes sociais, talvez nunca tenha sido tão atual e tão torpe. Não pela simplicidade popular da expressão, mas pela naturalidade com que ela passou a explicar o funcionamento moral do país.

A indignação coletiva já não nasce da injustiça em si, mas da ausência de participação no banquete. A questão deixou de ser ética e tornou-se distributiva. Não importa mais o tamanho do privilégio, mas quem conseguiu sentar mais perto da panela.

O problema é que o pirão brasileiro já veio repartido hierarquicamente desde o início. Uns carregam a lenha, outros mexem o caldo, alguns fornecem a farinha, e poucos escolhem quem pode provar da colher principal.

O povo observa a fumaça subir enquanto os donos do fogão discutem transparência institucional em auditórios climatizados, patrocinados por grandes empresas que, curiosamente, possuem processos aguardando julgamento exatamente nas mesmas cortes onde palestram ministros, ex-ministros, advogados e consultores jurídicos. A essa altura, já não se sabe onde termina a toga e começa o avental das consultorias privadas.

O Supremo Tribunal Federal conseguiu produzir algo ainda mais sofisticado: transformar a aparência de legalidade em espetáculo contínuo. Cinematograficamente, isso não seria chamado de processo. Seria chamado de roteiro. Um roteiro cuidadosamente desenhado, com plateia, protagonistas, patrocinadores e uma narrativa construída para parecer inevitável.

Tudo possui enquadramento. Tudo possui iluminação adequada. Tudo possui a estética conveniente da institucionalidade. O problema é que, quando os mesmos personagens transitam entre tribunais, institutos privados, bancas milionárias e empresas interessadas em decisões judiciais, o roteiro começa a revelar seus bastidores, e todos estão no palco.

Não é coincidência que os grandes eventos jurídicos contemporâneos se pareçam cada vez mais com festivais corporativos. Hotéis luxuosos, passagens internacionais, patrocínios discretos e painéis sobre ética institucional pagos por grupos econômicos que dependem diretamente das decisões do Judiciário.

O conflito de interesses deixou de ser vergonha de bastidor para ocupar lugar de honra na mesa principal do banquete republicano. O magistrado palestra. O advogado patrocina. O empresário financia. O instituto organiza. E o cidadão paga ingresso compulsório por meio dos impostos, acreditando ainda viver sob uma abstração chamada imparcialidade.

O curioso é que tudo isso ocorre diante de um país exausto. Saúde precária, educação fragmentada, segurança pública terceirizada informalmente para facções criminosas e um sistema penitenciário que funciona como extensão logística do crime organizado.

Enquanto isso, a elite institucional brasileira desenvolveu uma habilidade impressionante: falar sobre democracia sem precisar conviver com suas consequências práticas.

Criou-se uma aristocracia jurídica blindada pela linguagem técnica, onde qualquer crítica é imediatamente convertida em ameaça institucional, frequentemente absorvida pela lógica expansiva dos próprios inquéritos que deveriam preservar limites constitucionais.

E talvez seja exatamente aí que mora a ironia mais cruel. Durante décadas, repetiu-se que a Justiça era cega. Hoje, o país descobriu que ela enxerga muito bem. Enxerga patrocinadores, sobrenomes influentes, grandes escritórios de advocacia e interesses econômicos estratégicos.

O cidadão comum continua vendo apenas o símbolo da balança, enquanto, nos bastidores, circulam agendas compartilhadas, convites exclusivos e relações profissionais que atravessam gabinetes, escritórios e conselhos empresariais com uma naturalidade quase obscena.

Enquanto episódios como a posterior assessoria de Ricardo Lewandowski ao Banco Master ampliam a percepção pública de proximidade entre interesses privados e figuras centrais do sistema jurídico.

Nesse cenário, a chamada Lei de Gérson deixou de ser vício moral isolado para se transformar em método institucional. A vantagem já não é um desvio ocasional. Ela virou cultura administrativa. Todos parecem disputar algum espaço no grande balcão nacional onde influência, prestígio e proteção jurídica são negociados discretamente sob o verniz da legalidade.

O problema não é mais esconder. O problema é apenas controlar a narrativa para que o escândalo dure menos que o próximo ciclo de indignação das redes sociais.

O caso do Banco Master acabou funcionando como metáfora involuntária desse modelo. Não apenas pelos rumores, festas, relações empresariais e conexões políticas que circularam publicamente, mas pela sensação coletiva e seletiva, de que existe um país subterrâneo funcionando paralelamente ao oficial.

Um país onde empresários, operadores financeiros, políticos e segmentos do Judiciário orbitam entre si em um ambiente quase autônomo, protegido por linguagem técnica e blindagem institucional. O cidadão comum assiste como figurante de uma produção milionária cujo roteiro nunca ajudou a escrever.

Hollywood dificilmente construiria algo tão exagerado sem parecer inverossímil. Mas o Brasil resolveu ultrapassar o realismo fantástico. O país conseguiu produzir uma dramaturgia institucional onde os personagens mudam apenas de cadeira: ora são julgadores, ora palestrantes, ora consultores, ora convidados de honra de empresas interessadas diretamente em decisões futuras.

O trânsito entre essas funções tornou-se tão naturalizado que qualquer estranhamento passou a soar ingênuo, quase provinciano. Como se o verdadeiro erro fosse observar o mecanismo funcionando, e não o mecanismo em si.

Enquanto isso, o povo continua financiando tudo. Financia os eventos, os fóruns, os institutos, os auxílios, os gabinetes e a gigantesca máquina discursiva que insiste em chamar privilégio de estabilidade institucional. A população paga a conta da encenação completa: iluminação, figurino, camarim e efeitos especiais. E, ainda assim, recebe sermões permanentes sobre responsabilidade democrática.

Ao ponto de o decano da corte emocionar-se, cena transmitida nacionalmente, publicamente em sessão, exaltando o colega como figura quase redentora da estabilidade institucional.

O sujeito enfrenta fila em hospital público enquanto observa ministros discutindo civilidade em congressos patrocinados exatamente pelos grupos econômicos que litigam nos tribunais superiores.

A tragédia brasileira talvez seja justamente essa banalização do absurdo. O escândalo já não interrompe a rotina nacional. Ele apenas compõe a paisagem. O cidadão se acostumou a assistir ministros sendo tratados como celebridades corporativas, advogados transformados em intermediários de influência e empresários financiando ambientes onde a independência judicial deveria ser princípio absoluto.

A indignação virou fadiga coletiva. E a fadiga é o combustível perfeito para qualquer sistema que dependa da desistência moral da população.

No fundo, o pirão estragou porque os ingredientes apodreceram diante de todos. Não existe mais esforço real para esconder a promiscuidade entre poder econômico, influência jurídica e conveniência política. O que antes exigia discrição hoje desfila em auditórios, seminários, recepções diplomáticas e encontros empresariais com absoluta tranquilidade. O país institucionalizou o conflito de interesses como se fosse networking republicano.

E quem aponta o problema ainda corre o risco de ser acusado de atacar as instituições, quando talvez esteja apenas descrevendo aquilo que elas se tornaram.

No fim, o velho ditado popular ganhou atualização contemporânea. Já não basta comer do pirão. Agora é preciso participar da cozinha inteira: escolher os ingredientes, controlar o fogo, vender a panela e ainda convencer a plateia de que tudo está sendo preparado em nome da democracia.

O restante do país observa da janela, pagando a conta do banquete, enquanto os donos do fogão repetem solenemente que tudo funciona dentro da mais absoluta normalidade institucional.

TALVEZ FUNCIONE MESMO. O PROBLEMA É JUSTAMENTE ESSE.

 

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