
O cineasta Durval Leal observa, em seu texto, ter a percepção de que “o que está sendo difundido hoje na imprensa, na televisão, na internet e nas redes sociais é a desconstrução e a falência das instituições”. E cita como “nesse campo nebuloso, nomes como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aparecem associados e implicados, ao menos no plano das suspeitas públicas, e nas investigações que seguem”. Confira íntegra...
Quando eu era menino, eu ouvia histórias que começavam assim: o velho iniciava a contar uma história, mas dizia: “meu filho, essa história é do tempo de Bocage”. E parecia mesmo a história dele. Isso era uma expressão usada para histórias absurdas, antigas.
Eu vivi nesse tempo, eu tenho 63 anos e vivi uma época em que a gente convivia com contadores de histórias, pessoas que tinham o dom de lembrar contos, narrativas e transmitir de lenda para lenda, o que se chama história oral.
Os famosos narradores sempre tendiam a chamar a atenção das pessoas, trabalhando dentro do plano do absurdo, do inacreditável, da construção que, às vezes, beirava a imaginação do inimaginável, como diria Jorge Luis Borges, literatura do absurdo, literatura do grotesco, o realismo fantástico, o novo do real.
E assim, não tão longe, eu me deparo com algo semelhante: você começa a perceber que o que está sendo difundido hoje na imprensa, na televisão, na internet e nas redes sociais é a desconstrução e a falência das instituições. Estão fazendo do brasileiro o que o reinado de Versalhes, a corte, fazia com o povo francês: “se está com fome, coma pão; se não tem pão, coma brioche; se não tem brioche, coma bolo”.
Bolo de merda, ou de fezes, infelizmente, é o excremento que a classe política e o judiciário dão à sociedade e à juventude. É a quebra de todos os direitos.
Imagine, senhores: um juiz da Suprema Corte se dirigir ao Congresso, no momento da eleição de um indicado pelo presidente da República para ocupar um cargo no Supremo Tribunal Federal, e trabalhar contra esse nome, pois poderia vir a julgá-lo em futuros processos dentro da própria Corte.
Um ministro do Supremo se dirige a um grupo de senadores, com coragem e ameaçando colocar caneta nas sentenças, para afirmar que, caso o indicado se elegesse ao STF, os processos dentro do Supremo seriam colocados em julgamento, por ele e seus pares.
Uma forma de coação explícita para não eleger um indicado do Executivo. O ministro do Supremo, hoje, o senhor Alexandre de Moraes, surge nesse cenário como peça central da tensão e articulador da negativa. Com está em difusão explicita nas mídias.
Para não ter um desafeto, que poderia ser Jorge Messias,, imagina-se que ele poderia vir a ser aliado do ministro André Mendonça, que tem em mãos investigações sobre o Banco Master e o INSS.
E, nesse campo nebuloso, nomes como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aparecem associados e implicados, ao menos no plano das suspeitas públicas, e nas investigações que seguem.
E tudo isso para, possivelmente, colocar em xeque um grupo de membros do Judiciário que, como se comenta, andam fazendo negociatas não tão bem esclarecidas. Não se afirma, ainda, com provas, mas se sustenta como rumor persistente, o que, no Brasil contemporâneo, já funciona como pré-sentença social e moral.
Então, o ministro do Supremo, junto com o presidente do Congresso Nacional, também envolvido em problemas com o Banco Master e contratos do INSS via sindicatos, além de acusações de rachadinhas em seu gabinete no senado, revelam-se e se unem. E se unem para derrubar o veto da indicação do futuro ministro do Supremo Tribunal Federal.
Um minuto, e o absurdo maior aparece: unidos com o filho senador, líder da oposição e candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, para derrubar o futuro adversário, que é o próprio presidente da República, Lula que nomeou o, possível, futuro ministro do STF.
Parece intricado demais até para uma história de Bocage. Ou talvez nem tanto: Bocage ao menos assumia o exagero; aqui, o exagero se disfarça de normalidade institucional.
Acredito que nem a Madame Mim, nem a Maga Patalógica, nem a Fata Morgana, nem Merlim poderiam, com tanto excremento, fazer uma magia tão nojenta e colocar, assim, diante da opinião pública, todo esse descaramento.
Um descaramento patrocinado e bancado pelo próprio presidente da República, que investiu mais de 12 bilhões para fazer seu candidato, Jorge Messias, seu indicado a ministro do STF, ser aceito. Promovendo toda uma negociata, distribuindo cargos públicos em vários estados do Nordeste e do Norte ao presidente do Congresso.
E agora se vê o quê? Quem é quem nesse país? O presidente se compõe com o Judiciário? O Judiciário se comporta como Executivo? E o Legislativo? O Legislativo se une ao Judiciário para ir contra o Executivo.
Nossa, e quem está pela população? Quem está pela ética, pela moral e pela construção da educação do povo, dos jovens? Que PCC, que CV – Comando Vermelho, têm uma estrutura tão escandalosa e joga abertamente assim às vistas? Pelo menos as facções criminosas atuam na marginalidade, dentro de prisões e presídios. Nós, não. Nós estamos expostos ao descaramento público do Judiciário irmanado com o Legislativo.
Estamos reféns diante de uma nuvem, não apenas de vermes, mas de opacidade moral, uma peste que assola. Uma peste que tem nome: a quebra de todos os preceitos humanos e institucionais.
Um Estado corrupto que sequestrou a Constituição e o bem público. É um Estado que já não se define por suas leis, mas por seus arranjos.
E, assim, não tem como voltar. Ou você assiste como a um filme de terror, ou percebe que faz parte de uma grande farsa, de uma comédia desumana.
E talvez seja exatamente esse o clímax: não há mais narrador confiável. Os antigos contadores de histórias sabiam que exageravam; hoje, o exagero virou escárnio.
O que antes era dito “do tempo de Bocage” virou manchete. O que era lenda virou decisão monocrática. O que era grotesco virou rotina institucional no STF.
No fim, resta ao cidadão comum o papel mais ingrato: personagem involuntário de uma trama onde os autores são também juízes e beneficiários.
E, como toda má narrativa, não há catarse. Apenas repetição. Apenas continuidade. APENAS A NORMALIZAÇÃO DO ABSURDO.
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