PENSAMENTO PLURAL Sir Tu Moru Nu Kuru, por Durval Leal Filho

“Necessário e vergonhoso. Meu sentimento é que nossos netos estarão perdidos buscando ética, em meio a coliformes fecais. Hoje, assisto o refestelo na Corte Suprema”, indigna-se o cineasta Durval Leal Filho, em seu comentário, referindo-se à sessão do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira (15/09), para julgar pedido de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. Confira íntegra…

Eu acho, e acredito, que, dentro da agonia humana, o desespero leva ao haraquiri: o ato extremo de alguém tirar a própria vida. O japonês, pela ética e pela honra, fazia o haraquiri. Outros, na insanidade, na solidão ou na agonia, lançam-se da janela contra a própria existência.

O desespero deixa o ser humano sem caminho, sem medida e sem lugar onde possa apoiar a própria dignidade.

O que se vê agora em nosso entorno é outra forma de degradação: do Supremo Tribunal Federal. Nele, ética e moral parecem palavras destinadas a cair brevemente em desuso.

O próximo fato, talvez seja ainda mais escatológico, mas continuará sendo corriqueiro, pois faz parte do cotidiano, foi observado na instituição STF, nas decisões e, nos votos e nas diversas interpretações de seus membros.

É fato que já não se esconde, porque passou a circular diante de todos como se o absurdo, exposto na sala, tivesse adquirido cor, cheiro e viscosidade, uma maneira fedida de o Direito inconstitucional parecer normal.

O Judiciário como imagem é representado por uma figura vendada, com um manto e uma balança nas mãos. A venda deveria impedir preferências; o manto, representar a pureza; e a balança, garantir peso e medida. No entanto, sob a ótica da bestialidade, até a balança parece corrompida.

Infelizmente a única mulher na corte colocou uma venda preta, nos olhos, esqueceu-se de fechar o nariz, despiu-se do manto da vergonha e, entre os presentes, expôs seu afeto ao apoiar, descaradamente e em público, o Ministro Maioral dos Venais, que se vendeu para a proteção do Banqueiro, o ladrão dos aposentados e o parceiro de deputados e senadores.

Ela já não diz apenas: “Eu peso e tenho medida”. Parece dizer: “Eu escolho o peso e determino a medida, dos meus pares”.

É nesse desequilíbrio que os senhores do Supremo Tribunal Federal aparecem diante do país. Não quero generalizar, mas também não consigo separar cada um em suas turmas e facções, pois eles representam a instituição, e todos se alimentam dos resultados de processos, das grandes corporações.

Há quarenta anos, ou um pouco menos, esse cenário vem sendo enlameado. A Constituição chamada cidadã nasceu cercada por disputas, interesses e manipulações daqueles que a redigiram. A Magnífica sempre foi criticada por aquilo que permite nas leituras e interpretações dos corruptos que a leem para aplicar o Direito.

Sua construção não ocorreu fora da política, nem acima das forças que dominavam o país. Ao contrário: trouxe para dentro de si as contradições de uma sociedade dividida entre a promessa de cidadania e a permanência dos privilégios.

Quem se lembra da história também se lembra do tempo e dos fatos. Foi um dos poucos momentos em que o tal Luiz Inácio viu além do comum: ele conseguiu ler a composição dos representantes do povo brasileiro e daqueles que, em breve, ele poderia comprar a preço de “Mensalão”. Era quase os mesmos constituintes de 1988.

Os constituintes mercenários, comprometidos com as corporações não surgiram do vazio. Muitos pertenciam a uma classe política formada sob o governo militar, amparada por padrinhos, cartórios, grupos e interesses distribuídos pelos universos do poder.

Todos têm o DNA da Arena e o RNA do MDB não desapareceram da memória política apenas porque o país passou a pronunciar as palavras democracia, presidencialismo de coalizão, e orçamentos secretos.

Todos têm o DNA da Arena e o RNA do MDB não desapareceram da memória política apenas porque o país passou a pronunciar as palavras democracia, presidencialismo de coalizão, e orçamentos secretos.

Assim, a Constituição cidadã já nasceu atravessada por forças capazes de corromper a própria cidadania, favorecendo elites e grupos na interpretação das normas.

A principal vítima sempre foi, é e será o povo. A outra é o Estado, continuamente submetido a uma gestão ineficiente e compactuada com práticas antigas de corrupção e composições venais.

Por isso, não deveria surpreender o que o Supremo Tribunal Federal se tornou. Basta recordar os momentos em que ministros lavavam roupa em pleno tribunal, durante o Mensalão e o Petrolão, defendendo seus pendores corporativistas. Esse recorte não começou hoje; hoje apenas está mais exposto, escrachado e desmoralizado pelo baixo nível dos homens públicos que ascenderam ao Olimpo do lixo.

As redes sociais ampliaram a exposição e transformaram o instante em notícia. Agora, o monitoramento e o bisbilhoteio são imediatos. A vida do outro parece mais importante do que a própria vida. Todos vigiam, a todos até dentro da prostituída Corte, comentam, comem e julgam juntos.

O olho do Estado de Direito já não está sozinho. Tem ao seu lado as big techs, que nos observam, nos conduzem e parecem dizer até onde iremos e como chegaremos. E, se percebermos, basta um clique delas para que algo apareça, e desapareça, espalhe-se ou submerja nos buracos negros da “dark web”.

Enquanto isso, os membros do Congresso Nacional também participam diretamente dessa decomposição. Surgem envolvidos ¨nus” nas mais diversas circunstâncias, inclusive nas relações com facções e na liberação daquilo que já estava, implícita ou explicitamente, desregrado.

Hoje sabemos por que todos os deputados e senadores defendem a jornada 6 x 1, todos os senhores operadores da política partidária sonhavam em participar da festa do Vorcaro, na qual havia 120 mulheres para vinte nobres políticos com mandatos. Até o momento, não vi nenhuma crítica por parte do movimento LGBTKYGS.

O moralmente incorreto atravessa os discursos, os acordos e até o tratamento entre os pares. O desrespeito deixou de ser acidente. Tornou-se método de convivência. Quando tudo se perde entre aqueles que deveriam guardar as regras, entre marginais, resta ao cidadão assistir à disputa entre podres poderes que já não reconhecem limites.

O STF em suas turmas compôs as suas equipes e exibiram ao país suas escolhas. O que mais me surpreende é que temos apenas uma mulher naquele conjunto, e essa presença não rompeu a lógica dominante, de que as mulheres são mais honestas.

Como ela consegue sustentar essa aparência quando o cheiro da carniça se propaga de maneira tão uniforme? Alguns se vendem e mergulham nesse ambiente acreditando estar em outro universo, acima dos demais, e que nada acontecerá.

O mau cheiro não reconhece hierarquia. Alcança quem manda, quem obedece, quem pesa, quem mede e quem finge não ver.

É assim que vejo o momento a que chegamos. Estamos além do que Bakunin poderia imaginar e diante da coisa mais escatológica e depravada que nem Bukowsky, em sua verborragia depravada, pensou.

Se o haraquiri tradicional atravessava o ventre em nome da honra, o nosso parece percorrer o caminho inverso. É triste imaginar um ser humano fazendo um haraquiri pelo cu, pelo ânus, como se até a destruição moral precisasse perder qualquer vestígio de dignidade.

Não é apenas uma palavra grosseira. É a imagem final de uma Suprema Corte que perdeu a medida, corrompeu a balança, banalizou a vigilância e transformou a vida pública em matéria de decomposição.

A ética permanece vendada; a moral, ameaçada de desuso; a cidadania, comprimida pelos interesses; e o Estado, surrupiado por quem deveria resguardá-lo.

Realmente, vivemos uma era de tumor no cu da nação: uma fístula que cresce onde a vergonha deixou de doer e o asseio já não passa de fachada.

Ao sábio amigo Pereirão. Sr. TUMORU NU KURU, Ao infinito e ao além.

 

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